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segunda-feira, 15 abril, 2024
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BÔNUS DORIAN

Por Steven Allain Onde você mora atualmente? Na Big Island. Nasci e cresci em Kona e ainda moro lá. É uma pequena cidade onde as ondas não são muito boas na maior parte do tempo. As ondas são pequenas durante a maior parte do ano, o swell não entra com muita força. Quando eu era criança, achava aquele lugar um inferno. As ondas eram uma porcaria, eu só queria sair de lá. Mudei-me aqui para o North Shore aos 15 e morei por quatro anos. Me formei no colégio aqui. Morei na Califórnia durante alguns verões também. Com o tempo, percebi que eu realmente gostava da minha casa em Kona. Aos poucos, voltei a morar lá em tempo integral. Por que você parou de competir tão cedo? Caras da sua geração, como Slater e Knox, ainda estão competindo. O que te fez parar e ir buscar algo diferente? Parecia que eu estava perdendo tudo o que estava acontecendo. Quando eu era mais novo, tinha muita fome de vitória. Adorava competições e me importava muito com aquilo. Mas depois de alguns anos, chegou um ponto em que realmente não me importava mais se ganhasse ou perdesse uma bateria. Sentia-me da mesma maneira quando ganhava ou perdia. Isso não é um bom sinal. Foi aí que percebi que havia perdido a competitividade dentro de mim. Não falo muito disso, mas me lembro de estar em Portugal uma vez, para um WQS. A minha bateria era de manhã cedo, havia neblina, ninguém na praia, as ondas estavam horríveis e eu perdi. Fui até a sala da ASP onde você pega sua premiação. Lá dentro, havia uma foto da onda do século do Laird Hamilton, em 2000. Eu estava na Flórida quando aquilo aconteceu. Saí da água após minha derrota em Portugal, pensando “o que estou fazendo? Essa onda rolou ontem e eu aqui. Não me importo com o que estou fazendo aqui, ninguém se importa. Ninguém parece se preocupar se estou aqui ou não.” Então fui falar para a Billabong, “acho que eu poderia estar fazendo outra coisa. Quero sair em busca de ondas grandes. Queria fazer um filme, trabalhar em projetos diferentes.” Foi assim. Tive sorte. Você tem um approach diferente do que a maioria dos surfistas, em relação a ondas grandes. Tenta realmente surfá-la, ao invés de apenas sobreviver. Quando você acha que essa mudança aconteceu, que as pessoas começaram a manobrar? Quão importante é isso? Não sei como explicar. Sempre haverá algumas pessoas na água que não têm tanta técnica, não estão no mesmo nível técnico. Mas eles têm coragem e dropam qualquer coisa. Sempre há esses caras, e eles sempre estão se desafiando. Mas é incrível ver alguém que tem técnica. Como o Carlos Burle, ele tem muita habilidade e dá tudo de si. Ele sabe surfar uma onda grande. Sabe onde estar, tem ótima leitura de onda, posicionamento. Mark Healey, Sion Milowsky, há muitos caras bons. Acho que o nível do surf performance está só aumentando em ondas grandes. É o que queremos. É justamente o que eu ia perguntar. Para onde você vê o surf de ondas grandes indo? Onde ele está? Não sei. Tudo depende de dar onda grande. Algumas vezes os invernos não são tão bons por alguns anos, então não se pode progredir muito. Imagine os snowboarders caso não nevasse por dois anos. Não há nada que se possa fazer para treinar. É assim que estamos com ondas grandes. É quando temos um swell bom, ou uma série de swells, ou uma boa temporada, que o nível sobe bastante. Depois do ano passado, não foi coincidência que houve um grande progresso em performance em ondas grandes na remada. Foi porque tivemos um inverno épico. Muita gente fez o nome naquele ano. Isso porque todos tiveram muitas oportunidade. Foi um ano muito bom. Muita gente era desconhecida, como Sion Milowsky. Ninguém sabia quem ele era. Completamente desconhecido. Em um ano, se tornou um dos melhores surfistas de ondas grandes do mundo. Você faz parte de uma grande geração de surfistas havaianos. Você, Ross Williams, Kalani Robb, Benji Weatherly, entre outros. Por que sua geração de surfistas havaianos não ganhou um título mundial? Somos muito preguiçosos (risos). E também porque o Kelly estava lá. Sabia que você diria isso. É a realidade. Obviamente, seria muito mais fácil se ele não estivesse ganhando todos os títulos. É a mesma coisa para os australianos e brasileiros, todos. Mas é o que eu disse, todo mundo é um produto do seu ambiente. Eu não estava tão instigado, não tinha o instinto assassino. Venho de uma família de classe média-baixa. Não ligava pra grana, só queria surfar. Eu não era mimado, mas morava no Hawaii, não tinha stress nenhum. Acho que isso impediu muito havaiano de ganhar. Por isso que acho que o Sunny foi uma exceção. Ele era muito instigado, manteve sua vontade por muito tempo. Era muito agressivo e bravo e ele usava isso para vencer. Por isso que o Andy foi tão bem-sucedido. Usava sua agressividade. Sunny e Andy tinham muito em comum. Usavam sua paixão. Se eu fico bravo, ninguém sabe. Mas se o Sunny está bravo, você percebe na hora. Se o Andy está puto, todos sabem. Se você olha para o NSSA Nationals nos Estados Unidos, os havaianos acabam com todo mundo todo ano. Ganham todas as categorias. Mas quando eles fazem 17 ou 18 anos, somem de cena um pouco, acho que é porque não têm essa vontade, não são instigados. É difícil sair daqui para surfar ondas inferiores, certo? Claro. E não queremos colocar uma roupa de borracha. E isso é uma vantagem dos brasileiros. Resumindo, hoje vemos muitos surfistas profissionais bem-sucedidos vindos do Brasil porque as opções eram: ser bem-sucedido no surf ou ter uma vida muito difícil. Certo? E isso é muita motivação. Você vai tentar ganhar a vida pelas ruas em São Paulo ou viajar pelo mundo, ganhar campeonatos e ter uma namorada gostosa? Está de brincadeira? É como para crianças de New York, que cresceram no Bronx e são bons de basquete. Ou você se dá muito bem, ou passa por dificuldades. Isso te dá uma vantagem, porque te instiga. Dá disciplina. Alguém como Neco Padaratz, por exemplo. Eu nem sei qual é a situação econômica dele. Mas sua paixão, sua vontade – é impossível ter isso se você vier de Orange County (risos). Eu não vejo ninguém assim vindo de Orange County, entende? Porque se o Kolohe Andino, por exemplo, não se der bem, ele provavelmente arranjará um trabalho na indústria (do surf) e dirigirá um Range Rover por aí. Acho que isso é parte da razão pela qual os brasileiros estão sendo bem-sucedidos. De uma forma ou de outra, seu sucesso depende de sua vontade. Leia a entrevista na íntegra na edição de fevereiro. Dorian e sua 5’2″ Quad http://www.youtube.com/watch?v=HgU8tnpj0Xk Primeira sessão de Dorian em Mavericks http://www.youtube.com/watch?v=JdV_72IwGXk

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