Um dos criadores do Mesa Surfocrática, gaúcho Dadá Souza estreia coluna na HARDCORE tentando jogar luz sobre o lado escuro do surf organizado sob as batutas da WSL

Por Dadá Souza

Finalizamos 2018 com Gabriel Medina conquistando seu segundo título mundial e com nossos surfistas  dominando o Tour de maneira avassaladora. Definitivamente foi um ano para ficar na história do surfe brasileiro, mas o verão passou rápido e já estamos a poucos dias do início da corrida pelo título de 2019. Mas no mundo da WSL são tantas mudanças em tão pouco tempo que já não são poucas as pessoas que se perguntam: para onde caminha o nosso esporte?

Desde que o esporte deixou de ser organizado por uma associação (ASP) e virou produto no portfólio de uma empresa privada (WSL), os circuitos mundiais todos (CT, QS, Junior, Longboard e Ondas Grandes) foram adquiridos, foram gastos milhões e milhões de dólares, o marketing esportivo trouxe profissionalismo, organização e crescimento para o surf profissional, as premiações aumentaram, as transmissões melhoraram, o nível dos surfistas ficou mais alto e o surf passou a conversar com outros públicos e com outras marcas.

As contas não vêm fechando, o julgamento vem sendo bastante criticado e as muitas mudanças em tão pouco tempo demonstram uma certa instabilidade na World Surf League. […] Até quando o nosso esporte continuará sendo bancado por um herdeiro bilionário?

É correto afirmar que o Tour cresceu e o esporte evoluiu depois que os eventos pararam de ser bancados e produzidos pelas marcas de surf. As etapas do CT hoje são milionárias, trabalham com grande estrutura  operacional e a WSL firmou parcerias com grandes empresas e grandes canais da mídia global. A parte bonita do “circo” é realmente bela. Mas o mundo da WSL também tem seu lado escuro. Sabemos que uma boa parte dos competidores da elite são surfistas muito bem pagos, mas alguns viajam o mundo sem patrocínio e pagando tudo do bolso.

Aliás, circulam boatos de que Dirk Ziff, o mecenas que vem bancando a WSL, vem perdendo a paciência com o Mundial de Surf, que até agora só acumula prejuízos – pelo menos é o que parece. Não é segredo que a WSL ainda luta para fazer um circuito lucrativo. As contas não vêm fechando, o julgamento vem sendo bastante criticado e as muitas mudanças em tão pouco tempo demonstram uma certa instabilidade na World Surf League.

Até quando o nosso esporte continuará sendo bancado por um herdeiro bilionário? Ninguém sabe. Paul Speaker, o cara que foi um dos arquitetos da WSL e parceiro de longa data de Kelly Slater, foi retirado do cargo de CEO. Para a posição, assumiu a inglesa Sophie Goldschmidt, profissional que vinha de uma carreira ligada ao rúgbi, ao basquete e ao tênis. Sophie tem se mostrado forte, decidida e traz para o esporte uma grande experiência no marketing esportivo, mas nunca teve qualquer envolvimento com o surf e esse é um pecado que a comunidade não costuma perdoar. Sophie quase perdeu a etapa de Pipe e o surf tremeu. Por outro lado, Sophie mostrou mais fibra e coragem lidando com os locais do North Shore do que seus antecessores. Conseguirá ela fazer do surf um negócio lucrativo sem que o esporte perca a sua essência?

“Entre um circuito pasteurizado para a televisão ou um circuito com ondas de sonho, nenhum surfista/expectador hesitaria em responder que a busca é o que vale”

Confesso que gostava mais quando o circuito trazia aquele conceito do Dream Tour. Juntar ondas perfeitas e bons surfistas sempre foi a receita da alquimia perfeita. Com a saída das etapas de Fiji e de Trestles, duas ondas importantes e consagradas, para entrar as etapas de Keramas e do Surf Ranch, perde-se um pouco da emoção e
abandona-se de vez o conceito de “circuito dos sonhos”.

Keramas definitivamente não se compara a Fiji e a piscina de ondas do Kelly, que até agora não teve lá muita graça, tem formato completamente diferente das outras etapas, não tem confrontos diretos — o que desagrada tanto competidores quanto o público — e ainda corre o risco de, num total anticlímax, coroar o campeão da etapa fora d’água — como já aconteceu na primeira edição vencida por Gabriel Medina. Entre um circuito pasteurizado para a televisão ou um circuito com ondas de sonho, nenhum surfista/expectador hesitaria em responder que “a busca é o que vale”.

Falando nas etapas, são várias as mudanças – você pode saber mais sobre isso aqui.

O webcast em português continua isolado. Ícaro Cavalheiro, André Gioranelli e Klaus Kaiser, que em 2019 terão a participação oficial do Neco Padaratz, vêm fazendo um bom trabalho nas transmissões ao vivo, e conversam com toda a audiência de língua portuguesa. Mas não viajam mais com o circuito desde 2018. As transmissões hoje são feitas em uma sala fechada nos estúdios da WSL na Califórnia. Difícil entender essa postura justo no momento em que o Brasil vem se revelando como a grande potência do surfe mundial e quando a língua portuguesa vem ajudando consideravelmente a engordar os números de audiência. Como passar informações dos bastidores? Como reportar com precisão o que acontece dentro e fora d’água? Como fazer entrevistas ou uma análise dos atletas no free-surf quando se está a milhas de distância?

“A maioria já relevou, mas deve ser triste ser um simples surfista comum que ainda precisa se classificar para o CT competindo no QS – um processo que geralmente leva muitos anos – enquanto uns conseguem entrar no Circuito pela porta dos fundos”

O julgamento vem sendo o calcanhar de Aquiles da WSL. Não mudou muita coisa a troca do australiano Richard Porta, que ocupava o cargo de head judge desde 2010, pelo também australiano Pritamo Arendt. O fato é que os juízes continuam sendo massacrados pela audiência em um esporte tão subjetivo, e as teorias sobre julgamentos tendenciosos ganham muita força. Principalmente quando envolve candidatos ao título e os principais nomes do Circuito.

Ainda tem o Honey Club, o famoso clube dos queridinhos da WSL. O havaiano John John Florence se sentiu incomodado com a pressão sofrida em uma bateria e a WSL criou a regra do bloqueio e da pressão abusiva. Tem também o curioso caso do australiano Mikey Wright, que conseguiu generosos wildcards até que ele pudesse se classificar para o CT pelo CT sem nunca ter se classificado para o CT. A maioria já relevou, mas deve ser triste ser um simples surfista comum que ainda precisa se classificar para o CT competindo no QS (um processo que geralmente leva anos), enquanto um conseguem entrar no Circuito pela porta dos fundos (sem
trocadilho aqui).

Também teve o caso do Slater, que anunciou que se retiraria do Tour em 2019 e depois voltou atrás, decisão que acabou tirando o brasileiro Caio Ibelli da elite. Slater tem de decidir se continua ou não fazendo parte do Tour. Participar só quando quer é muita egotrip e uma sacanagem com a nova geração.

Com a saída de Kieren Perrow e com a entrada de Pat O’Connell, aquela teoria da conspiração que diz que a Hurley-Nike estariam de olho no circuito passaram a soar mais alto.

Ainda é cedo para saber ao certo para onde caminha o nosso esporte. Além do título mundial da WSL, 2019 servirá às Olimpíadas. O ranking final do WCT 2019 definirá 18 das 40 vagas para os jogos Olímpicos. (10 homens e 8 mulheres), sendo que cada país só pode mandar no máximo dois integrantes por gênero. As outras 22 vagas serão definidas em dois eventos da International Surfing Association (ISA): os Jogos Pan-Americanos de 2019 em Lima, no Perú e o ISA Surfing Games de 2020.

A propósito, como será quem vem funcionando o antidoping na WSL?

Sabemos que o surfe é um esporte dinâmico e que é da natureza do surfista se adaptar rapidamente às condições, mas não são poucas as pessoas que estão curiosas e intrigadas com os rumos do surfe profissional.

Fotógrafo, publicitário, co-fundador da Mesa Surfocrática e sujeito apaixonado pelo universo do surf, agora Dadá Souza também colunista da HARDCORE.