Por Igor Roichman Gouveia

“É goofy! É os goofy c*#$5$o!”

Subindo as escadas em direção ao palanque, carregado pela torcida e amigos, Ítalo Ferreira grita aos sete ventos o que os comentaristas Peter Mel e Martin Potter parecem não entender.

Um goofy ganhou sua primeira etapa em uma das ondas mais desfavoráveis aos surfistas de sua base. Além de fazer um incrível campeonato, crescendo sua média de notas a cada rodada, Ítalo derrotou na final o grande nome do evento (#cheersmick).

Se o finals day foi emocionante, a primeira parte do evento foi devagar… Muito devagar…

Bells iniciou com condições muito inconsistentes, séries muito demoradas e ondas difíceis de serem lidas. Mas se o mar não empolgava, logo na primeira bateria tivemos a disputa que muitos estavam esperando (inclusive eu – quem disse que pinto não voa?).

Griffin Colapinto foi um dos poucos que apostou nos aéreos em Bells (Cestari/WSL)

Griffin Colapinto x Filipe Toledo x mais um (sacanagem com o Michael February, mas nesse campeonato ele passou despercebido) deram início ao evento. No primeiro duelo entre dois “ases indomáveis”, quem levou a melhor foi o “padawan”. Com uma leitura de onda horrorosa de quem realmente nunca tinha surfado Bells, Colapinto foi pro aéreo e levou, abusando da rotação de eixo em seu reverse (fiquei desnorteado com um 7 na primeira onda).

Filipinho tentou ganhar surfando de borda, mas a borda não deixou. Quebrando o flow em algumas manobras, teve que ir disputar o round 2.

A escala de notas vem sendo julgada para baixo há alguns campeonatos e o tamanho da onda vem sendo a questão central para o atleta conseguir sair da casa do 5,50.

Na bateria entre Jordy Smith e Pat Gudauskas isto ficou claro. Jordy pegou todas as intermediárias que apareceram durante o heat e a média não passava dos 5 pontos. Pat G. na demorada série apresentou um surf muito parecido e bateu os 7 pontos. Na contagem regressiva Jordy tirou leite de pedra, terminando com um reverse e conseguiu sair com 0,03 na frente.

Dos 11 brasileiros, apenas o Medina passou direto para o round 3 (também 3 brasileiros na mesma bateria, algum tinha que passar) em uma bateria com poucas ondas contra o Ítalo e o Ian.

Na fase de repescagem, metade dos brasileiros avançou suas baterias. Filipe, Mineiro, Willian, Ítalo e Jessé escaparam da vigésima quinta colocação com Jessé sendo destaque e avançando sua primeira bateira no World Tour.

Caio e Ian ainda não acordaram para 2018. enquanto o Caio parece mais interessado em jogar golfe, Ian continua achando que vai passar bateria somando um par de 5.

Já Yago me mandou para a emergência (literalmente) na bateria mais controversa de todo campeonato, perdeu para Conner Coffin por 0,10.

Três dos 5 juízes deram a vitória para Yaguinho, que precisava de 7,18 e recebeu 7,07. Conner competiu demasiadamente conservador, fugindo de junções e passando a parede para rasgar na parte cheia da onda, foi privilegiado com um 7,67 em duas rasgadas e um layback na maior onda da bateria.

No terceiro round começou a caça as bruxas. Com a eliminação de grandes candidatos ao título, Bells embolou a disputa pelo ranking de 2018. Além do líder do ranking, Julian Wilson, Filipe Toledo (em uma bateria muito disputada contra o Ítalo) e o John John amargam o décimo terceiro lugar.

E o que falar do encontrão de Ezekiel Lau no JJF? Eu, que não tenho nada a ver com isso, adoro quando há entretenimento no início de bateria, assim há algo para fixar a atenção enquanto se passam 10 minutos até a primeira série.

A atitude feia ficou fora d’água: Ezekiel Lau em sua entrevista da vitória parecia mais feliz com a pinta de macho alfa do que com o surf apresentado.

Por falar em atitudes feias, primeira vez em anos que a WSL ajudou Jeremy Flores. Em uma daquelas baterias que ninguém está muito interessado em assistir, os juízes esqueceram que mudaram a escala de julgamento em 2018 e deram 5.63 em uma onda pequena, com manobras sem pressão e sem finalização.

Não seria a última vez neste campeonato que o Medina ia confrontar o Ítalo. Na quarta bateria do novo round 4, a dobradinha brasileira derruba Jeremias com certa tranquilidade.

Assim como na Gold Coast, Bells também teve dois campeonatos bem distintos separados por alguns lay days. Se de Snapper para Kirra as condições foram totalmente diferentes, no último dia em Bells a mudança significativa ficou por conta da escala de julgamento que voltou para os padrões dos anos anteriores.

Talvez a culpa desta mudança tenha sido a melhora da consistência do mar ou talvez tenha ficado por conta de ser o show de despedida do Mick. O circo estava armado, Mick avançou de forma tranquila nas quartas de final e em cada onda que vinha ecoava a torcida eufórica e os comentaristas especulavam se teríamos mais uma “Cinderela Story”.

Ítalo estava no seu dia e, de forma arrasadora, bulinou Ezekiel Lau no terceiro heat, fez a maior soma do campeonato e a escala ficou até pequena para o seu ataque vertical de backside.

Na última bateria das quartas, o Medina teve o confronto mais difícil. Frederico Morais, precisando de 8,74, na última tentativa recebeu 8 pontos e teve de se contentar com a quinta colocação.

Ítalo foi o melhor em Bells do início ao fim do campeonato (Cestari/WSL)

AS SEMIS FORAM ÉPICAS. Mick Fanning não encontrou dificuldades para passar por Pat G. Fazendo sua melhor somatória do evento, parecia estar no auge de sua carreira. Ia se encaminhando para a final como o grande favorito. A segunda semi foi ainda mais eletrizante. Ítalo e Medina travaram pela terceira vez o duelo mais técnico do evento. Ninguém economizou e com a maior onda do evento Ítalo tirou 9,17, levando-o para a final que mesmo antes de entrar na água já tinha entrado para a história.

Estava na hora, a última bateria da carreira do tricampeão mundial, de um dos surfistas mais competitivos de todos os tempos, começou

Ítalo começou rápido, dropando um pouco atrasado e perdendo boa parte da onda, recebeu 4,67 finalizando forte. Mick tentou responder escolhendo uma onda branca e lenta, foi com tudo para a junção e caiu: 3,33. Na série seguinte o jogo mudou. Ítalo escolheu a primeira onda e ela não foi tão boa, 6,33. Na de trás, Mick mostra por que é quem é, arcos longos e finalização forte, leva a praia à loucura, consegue 8,10 e passa na frente. Tudo indicava que a Austrália teria a festa completa. Mick pega uma intermediária e troca a segunda nota. Pressão toda para cima do Ítalo, que volta pro jogo. Com três grandes manobras no outside, mesmo caindo na finalização, arranca 7,33 e passa na frente.

A carruagem vira abóbora, Ítalo vira! E para não restar dúvidas, pega uma intermediária e faz sua melhor nota na final, 8,33. Martin Potter parece não acreditar, todos ficam estupefatos. A festa é brasileira, todos os amigos correm para carregar Ítalo escadaria acima. O sino mais uma vez é nosso!

O sino é nosso! (Sloane/WSL)