Em seus 30 anos, a HARDCORE celebra a carreira de três gerações de surfistas brasileiros, através de seus expoente máximos. Confira nossa entrevista com Adriano de Souza

Por Adriano Vasconcellos

“Brasileiro não desiste nunca”. Entre muitos, esse bordão se encaixa muito bem ao perfil de Adriano de Souza, mais conhecido como Mineirinho, o Campeão Mundial de Surf Profissional de 2015. O detalhe desse título é que aconteceu de forma brilhante, quando quase ninguém mais acreditava. Entre seis competidores com chances naquela final, era o personagem menos atrativo nos clubes de apostas. Mas, como num filme de cinema, “De Souza” foi derrubando um a um para levantar o troféu em Pipeline, recebido das mãos de ninguém menos que Gabriel Medina, que, para ele, é o maior surfista brasileiro de todos os tempos.

Ali na cena em Pipeline a história de Adriano veio à tona, pelo agradecimento emocionado ao irmão, que o introduziu ao surf ao comprar-lhe uma prancha de 30 reais. Da infância pobre no Guarujá e dos aprendizados duros do brasileiro, todos já sabem.

Esta entrevista especial nos 30 anos da HARDCORE busca revisitar a carreira de um campeão da vida, tirando dele declarações nunca antes ditas. Essa seção é tradicionalmente conhecida como 10 perguntas, mas, para Mineiro, abrimos uma exceção: 13 perguntas. Confira aqui a segunda parte da entrevista. Se ainda não viu a primeira, leia-a aqui.

A geração “Brazilian Storm” começou a se cristalizar encabeçada por você. Naquele momento, muitos dos novos surfistas que tomaram a cena tinham você como exemplo. Você acredita ser o primeiro surfista brasileiro a realmente mudar a questão da imagem do surfista profissional no Brasil? Isso ao juntar a dedicação ao esporte a uma estrutura profissional de equipe e suporte.

Para ser muito realista, não faço parte da “Brazilian Storm”. Na verdade, fui o divisor de águas entre essa geração e a do Neco, do Peterson, Herdy, Renan, Vitinho, Fabinho. Quando eles estavam entrando na transição da aposentadoria, eu entrei sozinho no circuito. Fiquei anos e anos sozinho, até vir essa massa chamada “Brazilian Storm”, com Jadson, Gabriel, Miguel, Alejo, Filipe. Posso estar esquecendo o nome de alguém, mas eram vários atletas que tinham um potencial forte de conquistar o mundo. Foi maravilhoso poder ver atletas mais novos que eu conquistando os olhos do público internacional, que sempre foi o que eu almejei na minha carreira como profissional. Ver essa garotada conquistando isso nessa época foi motivo de orgulho. Essas pessoas que eu mencionei estavam despertando o mundo naquele momento, e hoje um deles já tem dois títulos mundiais. E ainda há outros com grandes chances.

“Fiquei meio desapontado, por toda a trajetória que eu vinha fazendo na época. Já tinha feito grandes campanhas, conquistado três Top 5 no ranking, encostado na trave várias vezes. E daí chega o Gabriel e ganha o título na minha frente…”

Quando o Gabriel Medina foi campeão mundial, você havia operado o joelho, estava inativo, de olho no próximo ano competitivo. Logo depois da vitória do Gabriel, você deu uma excelente entrevista À HARDCORE, exaltando o feito dele. Mas pergunto, lá no fundo, sentiu algum desapontamento por não ter sido você o primeiro brasileiro a ser campeão mundial? Qual foi a sensação?

Com certeza, eu senti. Acho que a vitória do Gabriel mostra muita força. Mas, além disso, eu fiquei meio desapontado, por toda a trajetória que eu vinha fazendo na época. Já tinha feito grandes campanhas, conquistado três Top 5 no ranking, encostado na trave várias vezes. E daí chega o Gabriel e ganha o título na minha frente…

Como foi começar o ano de 2015 com o Medina campeão e você, até por voltar de uma contusão, considerado fora da briga pelo título? Quais eram seus pensamentos para aquele ano?

Fiquei super-abatido, e não podia fazer nada, porque estava lesionado. O que pude fazer na época foi abaixar a cabeça, treinar forte e almejar um grande ano. E, graças a Deus, deu tudo certo, no ano seguinte as coisas se encaixaram. Acho que tive um grande propósito, de ter um cara lá em cima também vendo tudo que estava acontecendo aqui embaixo, que é o Ricardo dos Santos, que naquele mesmo ano faleceu e deixou pra mim um legado de energia positiva muito grande. Essa energia também trouxe, junto com o Ricardo, o Leandro Dora, que é meu treinador até hoje.

Aí sim, chegou a final de 2015 no Havaí. Você conquista o título e se torna também o primeiro brasileiro a vencer um Pipe Masters, construindo uma história de cinema. Como é parar o tempo e relembrar aquele feito? É ter sua história em um frame?

Acho que é, com certeza, uma história de cinema. Se você parar para ver os últimos anos, a última década, você não consegue enxergar seis atletas indo para a última etapa com chance de título [foi o que aconteceu em 2015: Filipe Toledo, Gabriel Medina, Mick Fanning, Owen Wright, Julian Wilson e Adriano tinham chances]. Nos últimos anos sempre foram duas pessoas, no máximo três a disputar o título mundial. Em 2015, foi o dobro disso. Cada bateria que eu passava, eliminava uma pessoa da briga. Do outro lado o Mick, a mesma coisa, cada bateria que ele passava, tirava alguém da corrida. Acho que sim, passa um filme pela cabeça. O que eu posso me lembrar daquele dia foi o momento que ergui a taça do Mundial, tão almejada, de tantos anos de luta. É um momento que eu guardo o frame até hoje.

O Circuito mudou muito de uns anos para cá, e você é um dos poucos ue viveu esses dois mundos. Como você vê a diferença entre essas duas épocas, o auge da ASP e os anos de WSL?

Está sendo maravilhoso ver essa transição de atletas da ASP migrando para a WSL e perdurando até hoje. Acredito que fora eu, o Michel Bourez, o Adrian Buchan e o Kelly Slater, poucas pessoas sobraram desse seleto grupo, que também viveu momentos difíceis. E hoje está muito mais prazeroso, muito mais profissional e organizado. Tem muito mais dinheiro envolvido para a realização dos eventos. Grandes profissionais trabalham na WSL, e isso está influenciando os atletas e os fãs. Está demais, cara, está maravilhoso. Estou muito contente com o surf e o patamar que estamos vivendo atualmente.

O surf entrou para as Olimíadas. O que você espera para a competição e o que vislumbra para o futuro do esporte?

Bom! Vai ser muito produtivo ter atletas defendendo as cores do Brasil no Japão. Torço muito para que tenhamos essa primeira Olimpíada como base e aprimoramento para a próxima, que será na França, porque lá teremos ondas boas. Não quero tirar o mérito do Japão, mas acredito que será uma boa mescla: sair de ondas regulares para uma que realmente é de nível internacional. Inclusive, não temos uma etapa do Circuito Mundial no Japão devido Às condições do mar, mas agora teremos Olimpíadas. E as condições serão iguais para todos. Vai ser demais poder encaminhar coisas boas nesses próximos anos, cara.

Você realiza o Circuito Adriano de Souza com surfistas jovens de todo o país. Conta um pouco mais sobre o projeto. Você acha que chegou a hora de devolver ao surf um pouco do que ele te ofereceu?

É muito difícil promover o evento, para ser realista. No ano passado investi 40 mil reais do meu próprio bolso para o campeonato acontecer, e no ano retrasado investi mais 20 mil para a realização do Pro Junior na Guarda do Embaú, que levou o nome do Ricardo dos Santos. Aquele evento reuniu Lucas Silveira, Yago Dora, meu próprio manager, o Felipe Borges, e eu para que fosse realizado. Cada um deu uma contribuição para fazer esse evento em homenagem ao Ricardo. É muito caro realizar evento no Brasil, é muito difícil conseguir os apoiadores. Fizemos uma etapa em São Francisco do Sul e ficamos no vermelho novamente. Mas todo esse esforço que estou fazendo é, sim, retribuição por tudo que o esporte me deu. Ver a alegria das crianças levantando sua primeira taça ou almejando ganhar o campeonato, isso faz com que todo esse esforço seja recompensado.

Para terminar: qual é a mensagem, que pode vir junto de um pedido, que você deixa ao surf e ao esporte brasileiro?

A mensagem que posso deixar é um muito obrigado, muita gratidão. Estou na ativa ainda, pretendo ficar aí mais uns anos. Almejo ficar até uns 40 em atividade, então estou falando de mais uns oito anos. Sempre cuidei da minha carreira, sempre fui um atleta disciplinado pensando nisso, na longevidade. Me cuidei lá atrás e hoje estou tendo essa recompensa. Estou com 32 anos e em alta performance. Há 10 anos, isso seria impossível de acreditar, né? Então, devido ao nível, devido ao descuido de muitos atletas do passado, que não conseguiram continuar após os 30, eu abdiquei de muitas coisas para chegar a essa idade no nível que estou. Pretendo usufruir muito ainda.

A mensagem que eu é que temos que acreditar: acreditar que nada é impossível, que basta você almejar, criar, desenvolver e realizar. Foi tudo que fiz na minha carreira ao longo desses 15 anos que estou no mundo da competição. E, com certeza, essas palavras que tenho tatuadas sobre o Ricardo dos Santos no meu braço, que explica exatamente um desses pontos que me ajudaram muito: o “equilíbrio” de tudo na vida, o “amor” e a “força” para executar tudo. É isso. Valeu! Um grande aloha para a família HARDCORE!

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Entrevista originalmente publicada na HC #346, especial HARDCORE 30 anos.