Texto por Sávio Carneiro, retrato por Alexandre Gennari

Aos 11 anos, fui morar em frente à praia de Piedade, em Recife. No meu prédio, todo mundo pegava onda. Tinha um pico chamado Hotelzinho, muito popular na época, em 1982, frequentado por Fábio Cuencas, Carlos Burle, Zé Radiola, uma galera das antigas. Um primo meu, mais velho, já andava de skate e pegava onda. Minha mãe tinha muito medo, então ele ia junto. Comecei no surf com prancha de isopor comprada em supermercado. Cinco, seis meses depois, ela partiu ao meio. Esperei até o fim do ano, passei de ano na escola e minha mãe me deu a primeira prancha de fibra de uma marca local. Em 1986, iniciei nos campeonatos, me destaquei no amador.

Todo esporte, de certa forma, dá uma noção de participar, dividir suas experiências com outras pessoas. Com derrotas, vitórias, você aprende durante as etapas da vida e melhora como ser humano, porque entende que a vida não é uma vitória eterna. O surf, de certa forma, ensina a compartilhar, saber se relacionar. Te deixa preparado para a vida. Com as interações, você vai moldando seu caráter, entendendo como os outros pensam. Dialoga. Tenho certeza que o esporte é fundamental na formação de caráter de qualquer ser humano.

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Minha história na Surf Co e na Rusty… A marca veio para o Brasil em 1997. Tive uma grande afinidade desde sempre. Talvez por terem feito pranchas para o Occhilupo, um grande adversário do Tom Curren, do qual sou fã. Na época, eu estava saindo de um patrocínio, buscando outros. Mandei currículo, mas não consegui entrar. Contrataram uma equipe em 1998. Em 1999, eu estava meio que desistindo da competição. Foi muito difícil para mim. Não sabia se iria para a faculdade ou se continuava no surf.

Comecei a trabalhar de transfer do aeroporto de Recife para Porto de Galinhas, onde minha mãe tinha uma pousada. Nesse momento, acabei falando com um cara da Bali Surf Shop, em Recife, que falou com o Pedro Bataglin sobre meu desejo de fazer parte da marca. Na época, eu tinha ido para dois campeonatos do WQS – nono na Argentina e ido bem em Santa Catarina. Estava entre os 20 primeiros do QS, sem patrocínio, só o apoio da loja. Isso era em 2000. Fui para Noronha no primeiro Hang Loose. Voltei de lá, o Serginho, dono da Bali, tinha falado com o Pedro, e eu entrei na equipe.

No ano seguinte, competi, me classifiquei para o Super Surf e passei a desenvolver um trabalho grande de prancha com o Pedro. Eu tinha um bom talento para competição, mas não tão natural. Trabalhei bem o equipamento e criei uma sinergia. A partir dessa ligação, ele falou: “Pô, você precisa ter essa conexão com os atletas, pode ser um chefe de equipe.” Assumi isso em 2003, e segui até 2008, cuidando das viagens, de calendários. No começo, tinha um pouco de conflito, pois eu ainda competia, fazia parte do time. A coisa foi pegando mais corpo, fui ganhando mais maturidade, responsabilidade. Depois, ingressei no projeto de venda de pranchas, em um programa mundial. Me encaixei perfeitamente na parte de vendas, porque falo bastante, tenho a comunicação. Em 2013, encabecei a parte de gerência comercial, da venda prancha e de roupa para o Brasil inteiro.

Em termos de inovação das pranchas, o produto nacional está evoluindo. As de epóxi têm melhorado. Os EPS também. Resinas de melhor qualidade, fibras. Na Rusty, estamos sentindo um grande feedback com a Torsion Spring, um trabalho de dois anos. Trata-se de um bloco de EPS extrusado que não absorve água. Tem fibras biaxiais que respondem ao movimento que o surfista faz, com flexibilidade, uma borda se comunica com a outra por não ter longarina. Como não absorve líquido, a resina fica concentrada na fibra e dá alta resistência. O resultado é uma prancha que permanecerá com a mesma performance por dois, três anos. Estamos muito felizes com essa tecnologia, que implantamos no ano passado no Brasil.

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Alma HARDCORE: Renan Rocha

Texto e retrato publicados originalmente na HC #339. A coluna Alma HARDCORE é assinada por Alexandre Gennari.