Dizem que o Hawaii é o chakra do coração da Terra, e daí emana toda sua força. Devido a sua origem vulcânica, algumas das maiores ondulações do planeta chegam ali todos os invernos com força integral, sem plataformas continentais onde sua energia seria dissipada – como acontece no Brasil, por exemplo. Surfistas do mundo todo peregrinam, ano a ano, para a Meca do surf, onde tentam experimentar um pouco dessa força inexplicável.

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Os vulcões são a origem e o centro de tudo no Hawaii. E assim como eles criaram tudo que há nas ilhas, não há nada que se possa fazer quando eles resolvem tomar de volta. Foi o que aconteceu com a brasileira Fernanda Braga, nascida em Belo Horizonte e moradora da Big Island há nove anos.

A casa onde Fernanda vivia com sua família até a semana passada, quando ela foi engolida pela lava do Kilauea (Arquivo)

Foi no Hawaii que Fernanda conheceu o homem com quem se casou e teve duas filhas, e foi lá onde juntos construíram uma casa. Um sítio, na verdade: a propriedade, com 10 acres, abrigava as plantações de orgânicos que o casal de agricultores cultivava, além de alguns bichos, como cachorros, gatos, galinhas, cabras e ovelhas.

O cenário começou a mudar há 20 dias, quando um tremor de magnitude 6.9 na escala Richter foi sentido em todo o arquipélago. Fernanda e as garotas Anabelle e Yara, de cinco e três anos, respectivamente, foram para a casa de parentes na Flórida. Dustin Paulsen, seu marido, ficou na Big Island para o caso de um novo tremor ameaçar a casa.

O que veio a seguir foi pior do que poderiam imaginar. O Kilauea, o mais ativo de todos os vulcões da ilha, entrava em erupção. Diversas fissuras abriram-se no solo e em poucos dias um fluxo incontrolável de lava se estendia por diversos bairros da cidade de Pahoa, na região de Puna.

“Apesar de viver em uma área vulcânica, nunca imaginei que pudesse acontecer tamanha destruição onde moro”, conta Fernanda.

Toda a área do sítio, incluindo a casa, foi completamente engolida pela lava.

“A lava do Kilauea está fluindo em uma área chamada Kalapana desde 1983. Essa região faz parte do Parque dos Vulcões. A última erupção que aconteceu perto de onde eu moro foi em 1955”, explica. “Dessa vez, a lava achou um caminho por baixo da terra e começou a descer para o meu bairro, em vez da direção do Parque”, continua.

O governo federal dos Estados Unidos só passa a ajudar vítimas de erupções vulcânicas se aos menos 130 casas forem destruídas. O número de evacuações já ultrapassou esse limite, mas é pouco provável que tantas casas sejam destruídas por se tratar de uma zona rural. Ou seja: Fernanda e sua família, assim como todas aquelas, que perderam tudo com o Kilauea, precisarão recomeçar do zero.

A TERRA É DELA

Apesar das perdas, o momento é mais de força do que de desânimo ou desespero. E eles pretendem continuar no arquipélago, na Big Island mesmo. “Existe um grande respeito dos havaianos perante a deusa do vulcão, Pele. Eles acreditam ser uma honra quando ela vem te visitar e entrar na sua casa. Quando ela está a caminho, devemos limpar bem a casa e colocar oferendas, como se você estivesse recebendo uma visita de extremamente importante”, conta Fernanda, que já se integrou completamente à cultura e aos hábitos dos havaianos.

“A terra é dela, você não perde, ela apenas pede de volta… Se não fosse por ela o Hawaii não existiria”, continua. “O Hawaii é mágico! Me deu tudo, agora me tirou tudo. Mal posso esperar pelo que virá pela frente dessa próxima vez”.

Assim como muitos moradores afetados pela erupção do Kilauea, Fernanda e Dustin criaram um fundo particular para receber doações e recomeçar sua vida. Você pode ajudar o casal aqui.

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