Por Janaína Pedroso

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”     

Palavras sábias de Raul Seixas, que me mostrava, já na adolescência, como às vezes é válido mudar de opinião. O que não quer dizer que eu vá sair por aí virando a casaca, não é isso.

Mudar de opinião sobre um determinado assunto, mudar de ideia, significa trazer um novo sentido àquele velho pensamento, que se pararmos pra pensar, nem sabemos de onde vem. Na última coluna jurei que ia ser muito azeda, mas mudei de ideia.

E olha que tenho motivos de sobra pra ser “sour”. Enquanto escrevo, o Brasil (e o mundo) convivem com a execução da 5ª vereadora mais votada do Rio de Janeiro. A munição que assassinou Marielle e o motorista Anderson Pedro, segundo G1 (site de notícias da Globo), pertence a um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília.

A bipolaridade atuante no País faz com que as vidas não tenham mais importância diante de suas opiniões políticas. “Se era de esquerda e dos direitos humanos merecia morrer”. “Ela não passa de um cadáver comum”. Frases que li no dia em que sucedeu a execução da vereadora e seu motorista.

Além do mais, o crowd tá osso, tá uma crise da porra, eu nunca estive tão sem grana desde que comecei a trabalhar (ou tentei, como você descobrirá a seguir). Hoje sinto vergonha do meu país, apesar de amá-lo. E já que citei Raul, por que não lembrar Cazuza e sua belíssima “Quase um segundo”? “Às vezes te odeio por quase um segundo. Depois te amo mais”.

Mas vamos logo ao que interessa, você não está aqui pra ouvir lamentação e notícia ruim. Senão estaria no Facebook ou teria comprado uma Ana Maria (revista de fofocas e dramas dos folhetins televisivos, que inundam a mente dos brasileiros todos os dias com diferentes níveis de bestialidade, futilidade e alguma arte).

Minha primeira tentativa de emprego foi um pouco frustrante, mas muito divertida! Aos 16 anos, decidi pedir uma vaga de trabalho no lugar que eu mais amava na cidade: uma loja de surfe.   

Sabia que com a proximidade do fim do ano, o comércio estaria pronto para contratar empregados temporários, os famosos “extras de Natal”. Não sei como, mas saí da entrevista empregada e me lembro, perfeitamente, ter dito ao gerente que eu queria a grana pra viajar, surfar e curtir a vida. (Oi?!) Eu disse isso numa entrevista de trabalho? Sim, eu disse!

O bonde estava formado, aquele time de surfistas-vendedores se tornaria uma espécie de grande família. Rolava bate-e-volta, rolê, líamos revistas de surfe, assistíamos a VHS’s em monitores espalhados pela loja, vendíamos com entusiasmo aquilo que para nós significava a vida.

Competíamos em questão de conhecimento, me
orgulhava de ser respeitada por “ser mulher e saber vender prancha”, já que a esmagadora maioria dos
bons vendedores de pranchas de surfe eram homens.

Respirávamos surfe durante o turno que durava mais de nove horas, dependendo do dia até mais. Não havia qualquer chance de mudar de assunto. Era o surfe que nos movia. Desde as relações, até as roupas, a comida, o jeito de falar, a música, todo o universo desse esporte mágico.

A galera ficou tão amiga que foi todo mundo demitido junto. O time de vendedores extras para o Natal daquele ano tinha saído dos limites. A gota d´água aconteceu no início de uma noite que prometia ser movimentada e de boas vendas.

Alguém teve a brilhante ideia de dar início a um torneio de “braço-de-ferro”. Entre muita risada, e algum bom senso (isso vai dar merda!?), um dos braços acertou em cheio o vidro da mesa!  Estrondo e estilhaços pela loja – quão estúpido é tirar braço-de-ferro em cima de uma chapa de vidro? Naquela época ninguém se ligou nisso, só queríamos dar risada e tirar onda. Só que alguém tinha que ter alguma firmeza e, apesar de ser uma espécie de paizão da galera, o gerente-gente-boa ficou puto, com razão. Estávamos todos no olho da rua!

Fiquei triste quando soube mais tarde que existia uma outra razão, aparentemente, que motivou a demissão em massa do time de extras daquele Natal. Havia sumido mercadoria da loja, e pra não culpar um, ficou decidido que todos fossem demitidos. Não sei se isso é verdade ou boato, mas o time de vendedores fixos se manteve na loja. Já eu e meus colegas “extras”, acabamos sem trampo e sem grana pra surfar e curtir a vida.

Agora fico imaginando o que teria acontecido se eu tivesse ido pro Sul… Eu, minha prancha, alguns “mils” reais no bolso e meus dezesseis anos recém-completos. Não sei se isso teria dado muito certo.

“Prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

A vida muda de curso o tempo todo e eu mudo de ideia constantemente. Às vezes culpo meu signo, de Gêmeos, por isso. Dizem que somos meio mutantes mesmo, alguns nos acusam de sermos superficiais, instáveis.

Confesso que mudo bastante de ideia, gosto e desgosto com facilidade das coisas, das pessoas. Isso não faz de mim um ser fútil. Pena que só aprendi isso beirando os 35 anos de idade. A maturidade é mesmo uma benção, traz uma paz no coração que não vale a bunda dura dos 16.

No surfe não é muito diferente. Tive fases que foram da paixão fulminante até o desprezo total. No início foi uma paixão estarrecedora. Às vezes, não tinha nem onda por conta da maré. Outras nem a luz do dia. Não havia amanhecido, mas eu já queria surfar. Lembro de ir dormir com cenas na mente que correspondiam aos movimentos que eu precisava dominar para não cair da prancha ao ficar em pé.

Por alguns bons anos segui amando o surfe, fissurada mesmo. Vieram outros trabalhos em outras surfshops, em agências de viagens especializadas em surfe, também virei elenco de programa de TV, no papel da “surfista”. Vivia o personagem intensamente.

E como a vida é cheia de pregar umas peças na gente, veio uma fase complicada de lidar, quando se é apenas uma jovem adulta.

“Ter uma mãe dependente química exigiu de mim alguns esforços extras e certas renúncias. Fui obrigada a ‘crescer mais cedo’. Testemunhei cenas degradantes e assustadoras, como princípios de overdoses e outras que não me atreveria a descrever”

O surfe ficou de lado nessa época. Acabei indo morar na Austrália pra fugir um pouco da realidade. E apesar de estar no país do surfe, o primeiro ano de viagem foi quase todo longe do surfe (confesso que tinha muito medo de tubarão isso contribui bastante pra parar de surfar durante os anos que vivi em WA).

Consegui dar um novo rumo à vida quando deixei a isolada Perth após pouco mais de um ano e fui viver intensamente a movimentada Sydney. O surfe estava de volta! Minha vida estava de volta!

Eram mais de três anos sem ver minha família quando chegou a hora que a saudade bateu de vez, e com a facilidade de quem frita um ovo, fiz as malas e deixei tudo pra trás: um noivado capenga, móveis, roupas, pouquíssimas amizades e o sonho frustrado de viver no primeiro mundo.

Lembro exatamente do primeiro dia de surfe de volta ao Brasil. Foi sensacional! Não tem preço surfar no lugar que você se sente em casa. Foi bem especial. Voltei a viver o surfe, mas não durou muito tempo. Com a morte da minha mãe, matei em mim o que eu mais amava e me afastei novamente do mar. Entrei num processo de cura intenso, feridas que não cicatrizavam há muitos anos estavam sendo expostas, reviradas e tratadas. Aquilo doía demais, mas ao final seria recompensador, no fundo eu sabia.

Hoje posso comemorar um pouco, afinal, venci algumas batalhas internas importantes nesse processo. Desenvolvi um projeto de comunicação, conquistei este espaço – uma coluna na principal revista (única?) de surfe do país –, o sonho de morar na praia finalmente foi realizado, encontrei o parceiro que sempre sonhei. O que mais eu quero?  

Sigo surfando e hoje voltei a amar o surfe como nos tempos da adolescência, apesar dos meus joelhos não serem mais os mesmos.

E novas fases ainda virão, certamente. A vida é cheia de altos e baixos, não tem jeito. Como numa única queda, em que você pode tomar uma vaca fenomenal e em seguida surfar a onda da vida. E já que a coluna tá musical, por que não citar “Ups and downs”, do cachorrão mais sinistro do rap, Mr. Snoop Dog!

“There will be ups and downs, smiles and frowns. Share with me fairy tales or make-believe”.

 

NOTA DA COLUNISTA: Se eu tivesse escrito a coluna no mesmo dia em que o tema veio a minha mente, teria sido doce, mas tão doce! Experimenta pegar uma onda da vida pra ver como o mundo fica todo blue! Já diria o rei da soul brasileira Mister Tim Maia. O surfe me faz “Ver na vida algum motivo pra sonhar. Ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar”. Esse esporte é mesmo divino.


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