Por Janaína Pedroso

Devo dizer que nesta coluna estou sour, mas vou começar sweet, falando sobre os homens bons que cruzaram o meu caminho na incrível jornada em busca do surf e me inspiraram e inspiram até hoje a seguir surfando.

Os homões da porra que me “colocaram” no surf foram alguns. Você vai me julgar a mais clichê de toda a eternidade pelo que vou dizer agora, mas é a pura verdade.

Kelly Slater foi durante muitos anos pra mim uma espécie de Deus, munido de poderes sobrenaturais. Seu dom, técnica e talento sob a prancha me impressionavam demais (e ainda impressionam!).

Um dia, durante minhas andanças pela Av. Paulista – quando fazia cursinho no nº 900, prédio que abrigava a faculdade Cásper Líbero, meu sonho de consumo da época – parei numa banca de jornal e encontrei uma revista “x”.

Sou péssima com nomes, mas era algo como “Inside”, “Insight” [Editor: Inside]. O exemplar vinha com um vídeo-cassete do Kelly, motivo pelo qual me fez rapelar todos os centavos da carteira pra levar o filme comigo.

A revista era péssima, em compensação passei meses assistindo repetidamente o VHS, que tinha como única estrela Kelly Slater. Era ridículo. Cheguei a decorar as falas e reproduzí-las com perfeição, numa época em que a língua inglesa era uma ilustre desconhecida pra mim.

Foi Kelly que me inspirou, basicamente, logo no início da minha jornada como surfista. Agora pensando, se ao invés deste vídeo, e dos bate e voltas, tivesse estudado as apostilas do cursinho teria passado na universidade que sonhava.

“Antes dele, meu pai, que nunca foi um surfista de verdade, mas sempre adimirou o surfe como ninguém, me mostrou de um jeito meio torto a magia do esporte praticado
por Deuses antigos”

O surf mudou minha vida, é verdade. Tirou das minhas costas o peso de alcançar uma carreira brilhante. Eu só pensava surf. E surfar é estar na natureza, é procurar por uma água de coco pra matar a sede, é sentir o sal na pele, os cabelos endurecidos, a pele corada, a energia do sol, do vento, da vida.

Antes dele, meu pai, que nunca foi um surfista de verdade, mas sempre adimirou o surfe como ninguém, me mostrou de um jeito meio torto a magia do esporte praticado por Deuses antigos.

Lembro dele contar com orgulho suas investidas em Santos nos anos 70. Em sua casa, a mais de 490 km de distância do mar, fez da sua antiga prancha empoeirada um mural de fotos e nunca mais surfou.

Mas não teria me tornado surfista, acredito eu, se não fosse por um tio. Casado com a irmã da minha mãe, uma espécia de tia-amiga-filha-irmã, esse cara abriu as portas e meus olhares sobre surftrips, equipamentos, revistas  gringas, tudo do bom e do melhor.

Quando grudava no casal, que ainda nem era de fato um (o sim derradeiro viria anos mais tarde em uma linda cerimônia sob a luz do dia) era porque sabia que seria diversão garantida.

O paraíso da vez era o sertão de Camburi. Um lugar mágico, onde pousadas abrigavam árvores dentro de seus quartos. Roots total.

Então, veio uma casa noturna e acabou com a “alegria” da surfistada, que era mais “de boa”.

Daí surgiu Ubatuba, a cidade que me deu e dá muitas alegrias com o surf, e também me “apresentou” um senhor homão da porra. Meu companheiro e atual marido. Meu parceiro.

Faço questão de também mencionar inúmeros amigos, que me acompanharam nessa jornada de eterno aprendizado. Os meninos locais. Os de sampa, pô meu, parceiros de bate-e-volta.

Os homens “modernos”, os homens “compreensivos”, os verdadeiros “homões da porra”.

“Precisamos também falar destes que não valem a saliva. Se não prejudicassem tanto o entorno, seria mais fácil seguir no meu mundinho “cor-de-rosa”, mas eles fodem com a cabeça de muita mulher por aí. E não é só de surf que eu tô falando”

Mas nem tudo são flores. Neste mundão que gira tem muito homem babaca. Muito homem doente, com medo, egoísta.

E precisamos também falar destes que não valem a saliva. Se não prejudicassem tanto o entorno, seria mais fácil seguir no meu mundinho “cor-de-rosa”, mas eles fodem com a cabeça de muita mulher por aí. E não é só de surf que eu tô falando.

O fato de nunca ter sido ameaçada (já fui, não é o caso) não anula a legitimidade de poder falar sobre o assunto. Abraçar uma causa é ter compaixão pelo problema ou pela dor do outro. É sobre caridade sem querer nada em troca. Ações que nos aproximam de Deus.

Nesses anos de surf pelo Brasil e em alguns picos fora dele, sofri literalmente apenas duas vezes com machismo dentro da água. Nas duas, por incrível que pareça, eu fui rabiada pelo agressor.

Nada físico. Mas em ambos os casos houve xingamento, ameaça e termos escancaradamente machistas (ou misóginos, como queira).

Na primeira vez, o cara chegou a me mandar sair do mar pra pilotar um fogão, que era lá o meu lugar. Estava no Sul, lembro do sotaque gaúcho. Fiquei mal, eu era uma menina. Arrasou minha queda. Me lembro de chorar baixinho enquanto tentava afastar o frio e a vergonha com um banho quente.

“Sem falar num presidente de confederação que ameaça atleta por ela ter se manifestado em redes sociais. Esse mesmo camarada disse assim: ‘Não incentivo mesmo surf feminino por causa dessa meia dúzia de laranja podre’. Ele se referia às surfistas homossexuais”

No segundo episódio, estava em São Paulo, Guarú, um pico que sempre me senti “em casa”. Mesma situação, o cara me rabeou. Eu, macaca velha, levantei, respirei, peguei minha prancha e saí fora. Já distante do acidente começei a ouvir gritos. Ele me acusava de ter “destruído” sua prancha.

Cheguei perto do cara, olhei no olho dele e perguntei: você tá louco? Tá com algum problema? Você entra na minha onda, cai que nem um merda com sua prancha em mim, corro o risco de ser cortada ou furada por um bico e você vem reclarar que tem um trinco na sua prancha? Detalhe, enquanto eu falava isso ele gritava comigo descontroladamente.

Velho, o cara ficou louco. Só faltou me bater. E não vale pensar que eu estava errada. As pessoas ao redor mandaram o cara calar a boca, porque foi nítido identificar quem estava errado ali.

Pois bem, sem falar num presidente de uma confederação que ameaça uma atleta por ela ter se manifestado em suas redes sociais. Uma vez ouvi um cara dizer, que esse mesmo camarada tinha lançado uma assim: “Não incentivo mesmo surf feminino por causa dessa meia dúzia de laranja podre”.

Vou te ajudar nessa parte porque quando eu ouvi isso não entendi nada. As laranjas podres, às quais ele se referia, eram as surfistas homossexuais.

“Passou da hora dos homens serem mais sensíveis entre si, tirarem o peso das costas”

Por outro lado, é interessante notar como aos poucos, atletas e formadores de opinião tem se mostrado mais dispostos a falar sobre tabus, feridas e falhas no sistema do surf de competição e do mercado atual que move, de certa forma essas espécies de “máfias” do esporte.

Vale lembrar que o surf está longe de ser a única vítima desses vorazes algozes do poder. O futebol nunca esteve tão na “lama” quanto hoje.

Tenho a impressão de que passou da hora dos homens serem mais sensíveis entre si, tirarem o peso das costas. E assim, por consequência e da mesma forma, agirem com mais respeito para com as mulheres.

 

Nota da autora: Apesar de existirem milhares de homens incríveis, verdadeiros homões da porra, compreensivos, sinceros, talentosos e admirávies, existem tantos outros que não valem nada. E a nossa luta é contra estes, é contra quem padece por falta de hombridade – no melhor sentido da palavra. Nossa luta é contra os que querem enfraquecer, amedontrar, ameaçar, coagir homens E MULHERES. #SomosTodasJúliaSantos

PS.: Ah, e tem muita mulher no mar com postura bem pior que muito machão sisudo, mas este tema vai pra outra coluna.

Foto de capa: #SomosTodasJuliaSantos, por Longarina/Suellen Nóbrega