Kelly Slater vence Filipe Toledo em bateria histórica e título mundial fica entre Julian Wilson e Gabriel Medina

Por Fernando Maluf

Filipe Toledo foi derrotado por Kelly Slater na última bateria deste domingo (16), segundo dia de competição do Billabong Pipe Masters, e deu adeus à chance de conquistar o título mundial de 2018. A briga agora se concentra em Gabriel Medina e Julian Wilson.

Essa foi apenas uma das histórias de um dia memorável para o surf competitivo, como apenas Pipeline é capaz de proporcionar. Título mundial, permanência na elite, título da Tríplice Coroa Havaiana, uma aposentadoria em grande estilo e um “retorno” do competidor mais teimoso – e vencedor – da história do surf: tudo isso foi sendo moldado ao longo por ondas que passavam dos 12 pés de face na bancada mais famosa do mundo.

Filipe começou sobrevivendo ao perigoso local Benji Brand, vice-campeão da triagem.

A disputa pelo título prosseguiu com o duelo de Gabriel Medina com Seth Moniz, um dos melhores do dia.

O dia todo rolou com baterias simultâneas na água. Na primeira metade de Medina x Moniz, a prioridade era da bateria de Sebastian Zietz e Griffin Colapinto, que protagonizaram quase um campeonato de suicídios. Os dois se jogaram sem medo nas maiores ondas do dia. Griffin completou dois drops absurdos, um para Pipe, outro para Backdoor. Conseguiu corrigir a cavada e colocar para dentro em ambos; morreu nas duas vezes dentro de cavernas de arrepiar a espinha de qualquer ser humano. Zietz passou por um processo parecido, mas conseguiu aproveitar melhor as ondas pequenas que entraram.

Medina pegou um esquerda cavernosa mais perto do canal no meio deste duelo e quase completou o que seria um high score. Ganhou a primeira vantagem no duelo, mas uma vantagem baixa.

Seth conhece muito bem a onda e usou isso para pegar um ótimo tubo para o Backdoor que passou completamente despercebido por Gabriel, conforme revelou o brasileiro na entrevista após a bateria. Com outra boa onda para Pipe, colocou o brasileiro de baixo de enorme pressão.

Sentindo ou não a pressão, Gabriel simplesmente achou ondas ainda melhores para Pipe – ou pelo menos assim as fez parecer. “Ele pega ondas de 10 pés em Pipeline e brinca com elas como se fosse um beach break merrecado”, disse Ross Williams, que poderia abandonar a carreira de técnico e assumir de vez os comentários da transmissão. Ele é o melhor da equipe disparado.

A despeito dos melhores esforços de um legítimo filho do North Shore, Gabriel venceu com autoridade sua bateria.

Julian Wilson disputou a sobrevivência com Miguel Pupo. Miguel é excelente surfista em Pipe e todos sabem disso. Mas Julian também é. Os dois somaram um nota mediana-para-boa e uma ruim e fizeram uma bateria equilibrada.

A melhor onda de Miguel foi uma esquerda pequena para o tamanho do dia, mas perfeita, onde todo o trabalho do surfista foi completar o drop e esperar a cobertura desaparecer de cima de sua cabeça para sair sorrindo. A de Julian foi uma direita maior, meio branca, um pouco mais assustadora, que exigiu do australiano uma leitura e um jogo de borda um pouco acima do corriqueiro. Os juízes enxergaram nessa diferença a vantagem decisiva para a vitória de Julian.

Se o seeding havia sido ruim para Medina ao pareá-lo com Seth Moniz, pior ainda foi para Filipe Toledo.

Kelly Slater surfou pela primeira vez no ano – diz ele – sem sentir nada em seu pé lesionado.

Slater simplesmente brincou em Pipeline. Fez notas melhores que Joan Duru e Michael Rodrigues quando a bateria destes dois tinha prioridade.

Ao longo de seu duelo com Filipe, Slater pegou mais ondas boas que qualquer surfista no dia. Caiu no final de algumas e dentro de uma delas fez um pequeno milagre como apenas ele poderia fazer. No coração de um tubo da série em Pipe, escorregou da prancha e caiu de peito na água, bem na foam ball. Slater agarrou sua prancha com as duas mãos, conseguiu puxá-la, reerguer-se e sair do tubo em pé. Para os juízes a onda foi incompleta. Para a história do surf, foi um presente que dificilmente será esquecido algum dia.

 

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Em meio a essas ondas, Filipe quase, quase completou o que seria a única nota 10 do dia. Pense no tubo nota que ele tirou na Barrinha durante a etapa de Saquarema desse ano. Foi a mesma linha, em uma onda maior, muito mais pesada e valendo um título mundial. Filipe foi pego pelo lip quando saía do tubo, cravou uma borda na água e caiu. Ninguém chegou perto de completar uma onda como essa no dia.

Sobrevivência na elite

Os números ainda estão confusos, mas algumas quedas foram definidas neste domingo, assim como, aparentemente, algumas permanências.

Quem perdeu a vaga no CT para 2019: Ian Gouveia, Tomas Hermes, Connor O’Leary, Matt Wilkinson, Keanu Asing, Patrick Gudauskas, Michael February, Frederico Morais e Miguel Pupo – que ainda tinha uma chance de conseguir a vaga com uma vitória em Pipe.

Quem (aparentemente) se garantiu no CT em 2019, dentre os que estavam perto da zona da degola: Yago Dora e Joan Duru.

Yago é ótimo tube-rider, mas o diferencial para sua campanha excelente em seu primeiro Pipe Masters é que tem surfado com inteligência. O placar baixo de sua bateria contra Jeremy Flores esconde um ótimo trabalho feito pelo catarinense nos 40 minutos do duelo.

Joan Duru tem sido um dos destaques do evento. Se joga em ondas que dariam pesadelos por muito tempo a um surfista normal, às vezes completa, às vezes não, mas não economiza energia nem atitude.

Quase perdeu sua bateria para Michael Rodrigues, que até os três minutos finais tinha apenas uma onda: 1,33. Depois de quase 40 minutos, Michael escolheu relativamente bem, uma esquerda bonita que poderia ter dado a nota que precisava para virar, na casa dos três pontos – Joan, afinal, havia morrido dentro de quase todas suas tentativas. Michael não conseguiu ficar muito deep e a nota veio abaixo do necessário. O francês ainda pegou uma bomba para Pipe logo na sequência e selou de vez sua vitória.

Tríplice Coroa Havaiana

Jessé Mendes e Joel Parkinson brigam por essa honra quase secundária neste momento. Jessé costurou placar medianos com ondas possíveis, longe de serem as maiores da série. Completou-as e não foi ameaçado em nenhum momento por Wade Carmichael.

Aliviadas as tensões da permanência com uma campanha quase perfeita na temporada havaiana, Jessé parece um outro surfista e promete uma temporada de 2019 mais eficiente na elite.

Parko tomou uma bomba na cabeça em sua bateria e quebrou a prancha – as duas metades ficaram presas apenas pela fibra. Ainda assim, remou, botou pra dentro e completou um tubo animal para Backdoor.

Australianos fazem campanhas em hashtags para Joel e Julian. Jessé e Gabriel são o lado brasileiro da moeda. Tudo será decidido amanhã, em um dia que promete ondas perfeitas para o Backdoor. Acompanhe.

Billabong Pipe Masters – resultados e próximas baterias:

Round 4:
1: Ryan Callinan, Jordy Smith, Conner Coffin
2: Michel Bourez, Sebastian Zietz, Gabriel Medina
3: Yago Dora, Julian Wilson, Joel Parkinson
4: Jessé Mendes, Joan Duru, Kelly Slater

Round 3:
1: Ryan Callinan 8,77 x 2,43 Italo Ferreira
2: Jordy Smith 10,16 x 2,56 Michael February
3: Conner Coffin 13,00 x 6,40 Matt Wilkinson
4: Michel Bourez 11,70 x 7,36 Connor O’Leary
5: Sebastian Zietz 8,00 x 5,24 Griffin Colapinto
6: Gabriel Medina 14,30 x 11,83 Seth Moniz
7: Yago Dora 5,27 x 2,64 Jeremy Flores
8: Julian Wilson 8,43 x 7,00 Miguel Pupo
9: Joel Parkinson 13,20 x 1,10 Kanoa Igarashi
10: Jessé Mendes 7,17 x 2,84 Wade Carmichael
11: Joan Duru 8,20 x 4,86 Michael Rodrigues
12. Kelly Slater 15,60 x 6,77 Filipe Toledo

Round 2:
1: Filipe Toledo 12,70 x 11,76 Benji Brand
2: Seth Moniz 12,77 x 10,00 Owen Wright
3: Wade Carmichael 2,93 x 1,40 Caio Ibelli
4: Kanoa Igarashi 5,16 x 4,06 Keanu Asing
5: Miguel Pupo 10,04 x 5,00 Kolohe Andino
6: Kelly Slater 8,00 x 1,63 Willian Cardoso
7: Ryan Callinan 16,84 x 6,10 Adrian Buchan
8: Jeremy Flores 5,56 x 1,90 Ian Gouveia
9: Jessé Mendes 5,40 x 3,93 Ezekiel Lau
10: Sebastian Zietz 4,27 x 3,83 Patrick Gudauskas
11: Connor O’Leary 6,17 x 2,47 Frederico Morais
12: Joan Duru 16,60 x 1,26 Tomas Hermes