Por Fernando Maluf

O terceiro dia de janela do Quiksilver e Roxy Pro viu a realização de todas as baterias do round 2 masculino – dia de descanso para as meninas. Com ondas menores mas formação um pouco melhor do que no domingo, a terça foi o primeiro dia realmente decisivo no CT 2018, com resultados que terão impacto em todo o restante da temporada: a eliminação de John John Florence, na primeira bateria do dia, para o convidado Mikey Wright, é o melhor exemplo.

Ian Gouveia, Caio Ibelli, Jessé Mendes e Yago Dora foram os brasileiros barrados nesta rodada, terminando o campeonato no 25º lugar. Gabriel Medina, Adriano de Souza, Michael Rodrigues, Willian Cardoso e Tomas Hermes venceram e seguem no jogo.

Vendeu barato

A primeira vez em muitos, muitos anos que um campeão perde de cara; a primeira derrota de John John no round 2 desde 2015; há uma vastidão de números sobre a derrota precoce do havaiano na Gold Coast, nenhum deles capaz de explicar as manobras sem muita pressão e as quedas estranhas da prancha. Foi o tombo nas pedras de Snapper no começo do dia? Ou aquilo foi só mais um sintoma? Sintoma de quê? Preguiça, acomodação? Ou de muita pressão, até de si próprio? Ou ele só escolheu as ondas erradas? O fato é que os 10.76 pontos somados não venceriam quase nenhuma bateria no dia.

A primeira onda de John John no round 2 – a primeira do segundo dia de competição – parecia muito bem surfada. Até Mikey Wright vir na de trás e fazer o havaiano parecer um júnior brigando com um adulto. Onda maior, manobras mais críticas, mais desprendidas, com mais pressão. Os comentaristas pareciam um pouco constrangidos em ver o campeão mundial tomar uma escovada daquela. Talvez todo mundo tenha ficado um pouco. Os wildcards são sempre perigosos e não dá nem para chamar de azar para John John, a missão era dura desde o começo. Só faltou ele fazer sua parte. E faltou por muito.

Sangue frio

A pressão pode ter diversos efeitos sobre Gabriel Medina: exagerar nas disputas de remada, reclamar exacerbadamente, às vezes até mesmo sem razão, cometer interferências (dizer que pode não quer dizer que necessariamente tem os efeitos). Mas ela certamente não o derruba da prancha. Medina deu show no primeiro dia com a onda mais bem surfada do campeonato até agora, mas perdeu para o livro das regras e pelo excesso de vontade.

Na terça, Medina fez o simples, sem exageros, sem disputas desnecessárias. Quando tinha tudo para estar com a cabeça fervendo, Gabriel surfou o seu básico, que é suficiente para vencer 9 em cada 10 surfistas do circuito. Leo Fioravanti é um bom surfista e ótimo competidor, e ainda pode melhorar muito, mas dificilmente vai se tornar um dos caras que exigem o melhor do campeão mundial de 2014.

Michael elétrico & classe estreante

Michael Rodrigues mereceria um capítulo à parte. Pegou todas as 15 ondas a que tinha direito, entubou (algumas vezes), emendou um floater quilométrico, decolou, bateu junção e destruiu lip de tudo que é jeito. Se somasse seus dois primeiros descartes, ou um deles e o terceiro, venceria do mesmo jeito sua bateria contra Sebastian Zietz.

Michael vinha dizendo que as ondas de Snapper iam bem com seu surf e que esperava alguns de seus melhores resultados por lá. A primeira barreira ele já passou.

Quem também avançou com sobras foi Tomas Hermes. Em condições excelentes para o surf do catarinense, Tomas fez Joan Duru parecer um pouco grande, lento e pesado demais para as valas de Snapper. Passou com o terceiro melhor somatório do dia – acima, inclusive, de Michael.

Willian Cardoso venceu duelo caseiro com Caio Ibelli, que talvez tenha sentido falta de um metro de onda a mais para mostrar seu melhor surf. Panda, com toda razão do mundo, estava exultante depois da bateria. Ele abre o round 3, possivelmente na noite desta terça (manhã de quarta na Austrália), contra o atual campeão do evento, Owen Wright.

Yago Dora e Jessé Mendes foram os rookies que estrearam mal na elite. Yago não se deu bem nos dois dias de competição. Não conseguiu encontrar as melhores ondas e pareceu não entender o jeito certo de cativar os juízes. Fez algumas manobras radicais, mas talvez tenha sido punido pelo excesso de leveza, no geral.

A bateria de Jessé encerrou o dia com um anticlímax (ao menos para nós, deste lado do globo). Pegou a melhor onda do duelo com Wade Carmichael nos primeiros minutos e sofreu esperando um backup de qualidade. A onda veio na contagem regressiva. Jessé espremeu a coitada até sair sangue e comemorou demais ao finalizá-la, quase na areia. O enorme contingente brasileiro na praia vibrou junto, a virada era certa. Faltou combinar com os juízes. A onda não tinha muito tamanho e o score seria próximo no necessário (4.74), para mais ou para menos. Sem margem para erro, o veredito foi um 4.13 e um 25º lugar com sabor amargo de quem poderia ter ido mais longe.

Lembrete de Joel

Os melhores dias de Joel Parkinson podem ter ficado para trás, mas o veterano certamente ainda é um dos melhores do mundo. Ainda mais em direitas tubulares. Ainda mais se essa direita tubular for na sua casa. Melhores notas individuais e melhor média do dia para o campeão mundial de 2012.

 

Resultados do round 2 do Quiksilver Pro Gold Coast:
1.
 Mikey Wright (AUS) 15.10  x  John John Florence (HAW) 10.76

2. Gabriel Medina (BRA) 13.00  x  Leonardo Fioravanti (ITA) 7.90
3. Michael February (ZAF) 11.03  x  Matt Wilkinson (AUS) 8.97
4. Adriano de Souza (BRA) 11.40  x  Ian Gouveia (BRA) 10.07
5. Joel Parkinson (AUS) 17.03  x  Patrick Gudauskas (USA) 9.67
6. Michael Rodrigues (BRA) 14.67  x  Sebastian Zietz (HAW) 10.80
7. Frederico Morais (PRT) 12.16  x  Ezekiel Lau (HAW) 9.90
8. Kanoa Igarashi (JPN) 10.60  x  Keanu Asing (HAW) 8.86
9. Willian Cardoso (BRA) 12.90  x  Caio Ibelli (BRA) 10.83
10. Conner Coffin (USA) 12.20  x  Yago Dora (BRA) 10.60
11. Tomas Hermes (BRA) 14.93  x  Joan Duru (FRA) 12.17
12. Wade Carmichael (AUS) 11.74  x  Jesse Mendes (BRA) 11.13

Confrontos do round 3:
1. 
Owen Wright (AUS) vs. Willian Cardoso (BRA)

2. Mick Fanning (AUS) vs. Conner Coffin (USA)
3. Kolohe Andino (USA) vs. Tomas Hermes (BRA)
4. Filipe Toledo (BRA) vs. Italo Ferreira (BRA)
5. Jeremy Flores (FRA) vs. Adrian Buchan (AUS)
6. Gabriel Medina (BRA) vs. Mikey Wright (AUS)
7. Julian Wilson (AUS) vs. Michael February (ZAF)
8. Frederico Morais (PRT) vs. Kanoa Igarashi (JPN)
9. Joel Parkinson (AUS) vs. Griffin Colapinto (USA)
10. Adriano de Souza (BRA) vs. Wade Carmichael (AUS)
11. Connor O’Leary (AUS)  vs. Michel Bourez (PYF)
12. Jordy Smith (ZAF) vs. Michael Rodrigues (BRA)

Willian Cardoso venceu sua primeira bateria na elite e tem confronto duríssimo pela frente no round 3

Mineiro fez um duelo equilibrado com Ian Gouveia. Assim como Michael, estava elétrico – pegou 13 ondas, ao todo. Ian teve uma nota boa no duelo, mas não conseguiu encaixar seu melhor surf nas condições desta terça

Yago não foi bem em Snapper, mas deu alguns sinais do estrago que pode fazer nas próximas etapas

Tomas Hermes foi um dos melhores do dia. No round 3, enfrenta Kolohe Andino

Jessé fez a melhor onda de sua bateria com Wade Carmichael e não passou por muito pouco

Medina surfou o necessário para vencer Fioravanti e agora enfrenta o perigoso wildcard Mikey Wright

Todas as imagens por Ed Sloane/WSL