Por Fernando Maluf

Todos os anos, a possibilidade de correr algumas baterias do Quiksilver Pro nas ondas de Kirra gera forte expectativa em todos os envolvidos: surfistas, organização, espectadores. Uma expectativa positiva, afinal, trata-se de uma das ondas mais famosas do globo, uma direita de incrível extensão tubular que já ilustrou sonhos de 10 entre 10 surfistas de qualquer lugar do mundo.

Em vez disso, a mudança de Snapper Rocks para Kirra no dia de decisão da etapa de abertura do WT 2018 começou nesta quinta-feira (15) como um balde de água fria sobre as demais expectativas que vinham se alimentando ao longo do evento. Leia-se: as eliminações sumárias de Filipe Toledo e Owen Wright, os dois melhores surfistas do campeonato até então.

As condições estavam difíceis nas primeiras baterias, com uma ondulação de bom tamanho levantando diversos picos ao longo da praia e uma forte correnteza dificultando ainda mais o posicionamento. A brusca mudança de ambiente talvez tenha favorecido os surfistas que tinham menos a perder ali, que carregavam uma expectativa menor e por isso puderam agir com mais calma diante das circunstâncias.

Foi o caso de Adrian Buchan e Tomas Hermes. Owen buscou as bombas, mais próximo às pedras. Não achou nada além de fechadeiras – uma das quais partiu sua prancha ao meio. Ace procurou as intermediárias mais para o inside e se deu melhor.

No duelo entre brasileiros, Tomas sintonizou-se melhor com o mar, decidido a tirar scores realistas das ondas possíveis. Filipe esboçou um bom começo, mas não encontrou as ondas que desejava. Perdeu para o trabalho sério do compatriota em um duelo de notas baixas. Entre o celebrado esquadrão brasileiro, foi Tomas, com uma façanha memorável, o único a se garantir entre os quatro melhores.

As vitórias de Ace e Tomas sobre Owen e Filipe viravam o evento de cabeça para baixo e transformavam o último dia do Quik Pro em um torneio totalmente diferente.

Michael Rodrigues e Julian Wilson fizeram a primeira bateria “normal” do dia. Entre aspas pois Michael era, até outro dia, um surfista de quem o mundo pouco ou nada sabia a respeito; e porque Julian escapulia do departamento médico no meio da recuperação de uma lesão ligamentar no ombro direito. Ele remou o campeonato inteiro com cara de sofrimento. Uma vez em pé na prancha, a história era outra.

Os dois trocaram ondas do início ao fim da bateria. Michael praticamente não errou, e fez o que tinha para fazer com as ondas que encontrou. O diferencial foi a escolha delas. Julian veio nas maiores e mais pesadas, critério que nesta etapa foi mais decisivo do que nunca. Aos poucos, Kirra começava a quebrar clássica e mostrar os caminhos de seus tubos para os competidores.

Griffin Colapinto arrancou o único 10 da competição contra Michel Bourez e seguiu vivo em seu conto de fadas rumo à semi, assim como Tomas. Vale um apanhado das vítimas dos dois (e também de Michael, por justiça):

Tomas: Joan Duru, Kolohe Andino, Mick Fanning, Filipe Toledo
Griffin: John John, Mikey Wright, Joel Parkinson, Kanoa Igarashi, Michel Bourez
Michael: Sebastian Zietz, Jordy Smith, Adriano de Souza

Quando Owen e Ace patinavam para se encontrar nos vagalhões que entravam na primeira bateria do dia, muitos se perguntavam: onde estão os figurões, Mick, Joel, Jordy, Adriano, John John? Pois bem…

Nas semis, as ondas intermediárias que carregaram Tomas contra Filipe não foram suficientes para passar por Buchan. Mas foi por pouco. Não é o caso de Tomas, que raramente reclama das notas recebidas, aparentemente, mas muita gente achou o resultado da bateria bem estranho.

Griffin e Julian trocaram golpes francos no duelo seguinte. O australiano, de novo mais fundo e nas maiores ondas, venceu.

Julian vai vestir amarelo

A sensação de estranheza das primeiras horas do dia já tinha passado por completo quando a final começou. Em clima de festa nas areias de Kirra, a dupla de australianos protagonizou um show de tubos pra ninguém botar defeito.

Julian parecia no seu estado mais normal possível quando abriu a bateria com um 10 que dois juízes tiveram o descuido de chamar de 9.8. Na média, 9.93 para o aussie de Coolum Beach. Antes de Buchan passar dos dois pontos somados, Julian se enfiou num canudo menor para cimentar sua liderança acima dos 15 pontos de média.

Ace eventualmente se achou na bateria, mas não com as notas suficientes. Sem remar direito e sem dar joelhinho para varar as ondas devido à lesão no ombro, Julian sobressaiu-se em meio a uma série de eventos estranhos na Gold Coast para ir a Bells Beach vestindo, pela primeira vez, a lycra amarela.

 

Lakey Peterson comanda entre as mulheres

A norte-americana Lakey Peterson foi a campeã do Roxy Pro, em final realizada pouco depois da masculina. Ela havia passado por Malia Manuel na semi. Na decisão, venceu a australiana Keely Andrew, que tinha derrotado a experiente Sally Fitzgibbons na outra semi.