Quiksilver Pro foi adiado em dia de ondas perfeitas em D’bah e finalizado na manhã seguinte em condições horríveis. Surfistas expressaram frustração com decisão da WSL

Por Fernando Guimarães

“Se eu estivesse nessa situação mais dez vezes, deixaria a onda para o Italo nas dez. A onda era da altura do joelho”, lamentou-se o vice-campeão do Quiksilver Pro Gold Coast, Kolohe Andino, que não quis usar a prioridade em uma valinha minúscula no último minuto da final e viu Italo Ferreira usá-la como rampa para a virada e a vitória.

As ondas do último dia de competição do Quiksilver Pro foram as piores de toda a janela, transformando em anticlímax o encerramento de um campeonato que vinha sendo, até então, muito bom.

A história que não foi contada pelos narradores da WSL nem nos seus comunicados à imprensa é que em vez das merrecas horríveis da segunda, o campeonato poderia ter sido finalizado em condições espetaculares, na própria praia de Duranbah, no dia anterior — como todo organizador de campeonato gosta.

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São vários os relatos de que o mar estava clássico na manhã de domingo (7) na praia que acabou por receber todos os dias de competição. Um deles de Gabriel Medina, que demorou quase 20 minutos para pegar sua primeira onda na sua bateria das quartas de final, na segunda, como que em protesto contra a decisão.

É difícil competir quando não há oportunidades. Estava muito difícil achar uma onda. Agora vamos para Bells. Ontem eu surfei em D’bah e estava muito bom, estava bombando, mas tentaram fazer o campeonato em Snapper. Sei lá. Espero que em Bells a gente tenha ondas melhores e mais oportunidades.

A mensagem passou despercebida e ninguém da WSL — Rosie Hodge, Ron Blakey, Kieren Perrow, Peter Mel etc — tocou no assunto. Mas para quem reclama que as entrevistas de Gabriel são pasteurizadas e sem conteúdo, o recado desta vez, se contextualizado, foi claro e enfático.

 

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WSL Commentators break down the battle in the #QuikPro Final between @italoferreira & @koloheandino22 | Watch the full video on worldsurfleague.com

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A onda da série passou e a WSL não pegou. Isso aconteceu porque o desenrolar dos fatos foi pautado não pela qualidade das ondas, e sim por questões contratuais e financeiras.

O estado australiano de Queensland foi um dos principais patrocinadores da etapa. E até este domingo, não tinha recebido oficialmente nada em troca pela WSL. Apesar de todos os surfistas, toda a estrutura se concentrar lá, a praia de Duranbah, por mais incrível que possar soar, pertence ao estado de New South Wales.

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A etapa tinha que dar algum retorno aos órgãos envolvidos. Além do que, cada dia de campeonato em D’bah incorria em mais gastos pela licença para realização em NSW, já que as relações anteriores tinham sido firmadas com o estado de Queensland.

O domingo parecia o dia mais promissor da janela para Snapper, e assim a estrutura deslocou-se toda para lá. Apesar de alguns buracos atrás das pedras — e abaixo do nível do mar — aparecerem vez ou outra, as condições estavam inviáveis. Toda a equipe e os surfistas já estavam lá, e a WSL realizou um tipo de Expression Session, incluindo veteranos como Tom Carroll e o próprio Luke Egan, que virou comentarista nesta primeira etapa.

Trazer todo o circo para Snapper fazia parte da entrega do tal camarote VIP, batizado de VIP Experiences That Journey Beyond, com preços que chegam aos 40 mil reais. O programa lançado neste ano envolve diretamente uma parceria da WSL com órgãos turísticos locais – da Austrália, Taiti, Bali, África do Sul e por aí vai. De maneira que, por mais surreal que possa parecer, a linha imaginária que separa D’bah de Snapper precisaria ser respeitada em algum momento.

O momento foi a manhã do domingo, enquanto Gabriel e outros surfistas pegavam altas ondas em D’bah e alguns tops do CT participavam da sessão em Snapper. A direção do evento adiou o início da competição, chamada após chamada, aguardando uma melhora das condições no pico. A melhora não aconteceu e no período da tarde tomou-se a decisão de chamar o day-off e esperar por um alinhamento improvável no dia seguinte, de volta à praia e ao estado vizinhos.

Trocar condições e picos clássicos por ondas sem qualidade, seja por questões burocráticas e contratuais ou por uma oportunidade financeira, não é nenhuma novidade no Circuito Mundial. A virtude primeira do campeonato que tanto gostamos deve ser manter-se vivo. E a grana é necessária. Mas chamá-lo de Circuito dos Sonhos deve estar saindo de moda muito em breve.