Jessé Mendes teve uma experiência na elite como wildcard na etapa de Margaret River, Austrália, em 2017.

 

Por Gustavo Migliora

 

O time brasileiro está reformulado para 2018, e vai entrar com tudo na busca de mais façanhas, baterias vencidas, etapas, performances consistentes e inovadoras e, principalmente, títulos mundiais. O que era uma “tempestade” virou uma sólida realidade, com alternância de poderes dentro da própria rivalidade interna e também na obsessão pela lycra amarela – o posto de número 1 do mundo. 

Enquanto saíram Jadson André, um dos mais antigos frequentadores das ondas do Dream Tour, Wiggolly Dantas e Miguel Pupo, por questão de tempo, pois ambos têm tudo para voltar pelo Qualifying Series, o esquadrão brasileiro se preparou com uma equipe de pesos-pesados para 2018. De um total de nove competidores dentro dos Tops 32, passamos agora para 11.

Gabriel Medina empunha a bandeira verde-amarela, acompanhado de Adriano de Souza, campeão mundial de 2015, Filipe Toledo, Ítalo Ferreira, Ian Gouveia, Caio Ibelli e dos novos rookies do Tour: Jessé Mendes, Yago Dora, Willian Cardoso, Tomas Hermes e Michael Rodrigues.

Alguns dos novatos já buscavam há um bom tempo a entrada no Tour. Jessé Mendes sempre dividiu com Medina e Pupo os pódios das categorias de base no litoral paulista, e a entrada dele chega a ser tardia. Willian Cardoso, o Panda, já sentiu o gosto do Tour e agora foi recompensado. Tomas Hermes vinha batendo na porta, sempre no Hawaii, e dessa vez deu certo, sem muita pressão. Já Yago Dora surgiu como um raio no Tour e garantiu a sua vaga precocemente, está muito bem assessorado por um time de ponta e podem crer que ele vai causar em 2018. E o Michael Rodrigues foi uma grata surpresa, resultado de um interessante mix de sua origem cearense com a residência em Florianópolis.

O que eles pensam e o que projetam – isso é que você, leitor, saberá agora, nas entrevistas realizadas durante a temporada havaiana, com tudo definido para 2018.

 

JESSÉ MENDES

24 anos | Guarujá, São Paulo | Goofy
2º colocado no QS 2017
Melhores resultados: Campeão do Australian Open e do Chiba Open;
                                             Vice no Toyota Newcastle Pro

 

Depois de alguns anos batendo na trave, em 2017 você foi o primeiro a carimbar passaporte para o CT. Como se sente? Mais aliviado?

Com certeza foi um alívio, um peso que saiu das costas. Eu não esperava me classificar tão cedo e tão rápido como aconteceu. Acreditava que um dia conseguiria me classificar, mas não em quatro etapas seguidas. Então, estou amarradão.

Você foi o último dessa geração do Brazilian Storm (Medina, Filipe, Miguel, Alejo…) a entrar no CT. Acha que leva alguma vantagem, depois de passar mais tempo competindo no QS? Ou no CT são outros quinhentos? Sente-se menos pressionado agora?

Eu não acho que tenho vantagem ou desvantagem. Acho que Deus tem um plano para a minha vida, então acredito que tinha que ser assim mesmo. Sempre terá pressão, eles quebraram muitas barreiras e também esse lado da pressão, mas agora tem mais pressão por o Brasil ser uma potência. O brasileiro, como diz o Miguel, está na moda agora. Está todo mundo de olho em nós, então já pensam sobre os novos quem entram: “Esse cara tem que fazer pelo menos parecido com o que os outros fazem”. Então, a pressão é igual, você sempre terá essa pressão de performar o melhor possível.

Ano passado você correu algumas etapas como convidado. Qual a diferença entre correr com um wildcard e como um integrante real da elite?

Acho que são pressões diferentes. A outra pressão era mais sobre performar e não qualificar e se manter lá dentro. Agora a pressão é que você tem que se manter e é de igual para igual. Você não vai correr uma ou duas etapas, vai correr o circuito inteiro e terá que performar lá dentro. Então, acho que a pressão aumenta, tem mais peso nas costas. 

Você traçou alguma meta para 2018 ou vai surfar uma etapa de cada vez e ver no que dá?

Meu objetivo é conseguir manter um alto nível constante em todas as etapas, sem oscilar, e dar o melhor que tenho, fazer o meu melhor surf em cada etapa. Agora estou pensando em Snapper, depois penso em Bells, depois vou para Margaret e assim por diante.

Quais ondas você mais quer surfar? 

As ondas que mais quero surfar são Snapper Rocks, Teahupo’o e Pipeline. 

Quais são seus pontos fortes nas ondas do CT? Onde acha que ainda precisa evoluir?

Acho que meus pontos fortes deixo para mostrar pelo surf, não gosto de ficar falando das qualidades e defeitos sobre a minha pessoa nem sobre os outros, então deixa rolar e que os outros falem. Em todos os pontos tenho que evoluir. Quando entra no WT, você tem sempre que dar aquele pulo a mais em tudo o que faz. Tem que aumentar o nível, porque o nível de lá é maior. Então, acho que em tudo, tubo, manobras de linha, aéreo, acho que em todos os lados você tem que acabar evoluindo, porque lá dentro todo mundo dá aquela subida. Você vê como evoluem bastante as pessoas que entram e ficam por alguns anos. Tenho que fazer o mesmo, evoluir um pouco em tudo, ou bastante em tudo, e me adaptar com o que os outros estão fazendo lá dentro. 

O que achou da saída de Fiji para entrar Keramas e da saída de Trestles para entrar a piscina do Kelly?

Achei bem triste. Fiji era a etapa que eu mais esperava competir um dia, mas é isso. E ainda entrou mais uma direita no Tour. A gente já era meio escasso de manobras de esquerda e entrou mais uma direita. Tiraram a melhor etapa do Tour – provavelmente 99% dos atletas preferem Fiji e acham a melhor etapa –, era uma onda de tubo, manobra e uma esquerda, aí colocaram Keramas, que é uma direita de manobra. Então, mais uma direita de high performance e menos uma esquerda de high performance.

“Meu objetivo é conseguir manter um alto nível constante em todas as etapas, sem oscilar, e fazer o meu melhor surf em cada etapa”

Tem alguém com quem você quer muito competir? Por quê?

Não tem ninguém que eu queira muito competir. Acho que todos têm suas qualidades e são atletas excepcionais. Tenho vontade de competir com todos.

O esquadrão brasileiro está bem forte em 2018. Fala um pouco sobre os novos integrantes do CT.

Os novos integrantes são grandes amigos meus, principalmente o Willian e o Tomas. Comecei a viajar o QS seis anos atrás com eles, então eles foram meus tutores do circuito. Me mostraram como funcionava. O Yago é um grande amigo, um pouco mais novo que eu, e o cara é muito talentoso. No início da temporada havaiana, o Michael ainda não estava garantido, mas eu tinha quase 100% de certeza que ele iria se garantir. É um surfista muito habilidoso, rápido, com surf explosivo. Vai ser irado!

Uma mensagem final para a galera que está na torcida.

Que continuem torcendo. Isso ajuda bastante e é uma grande parte do que o Brasil se tornou hoje. Se não fosse a torcida e o apoio de todos no Brasil, isso não teria acontecido. Até os gringos hoje em dia buscam isso, o que não acontece de um dia para o outro. Isso vem da cultura do Brasil e do brasileiro.

E esse cabelo? Promessa?

Não foi nenhuma promessa. Cortamos porque estávamos no churrasco, começou a brincadeira e acabou indo todo mundo.

 

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição #336 da Hardcore, de janeiro/fevereiro.


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