Filipe Toledo é o campeão do Oi Rio Pro 2018, encerrado nessa sexta (18) em boas ondas de até dois metros na Barrinha. Como se toda a expectativa acumulada desde a pré-temporada finalmente se tornasse realidade, o surfista de Ubatuba foi superior a todos seus concorrentes nos sete dias de competição em Saquarema de todas as maneiras possíveis.

Na quarta rodada, fez a única nota 10 do campeonato com um aéreo espetacular. Na final, pegou o melhor tubo da sexta-feira e fez a melhor nota e soma do dia (9,93 – vídeo abaixo – e 17,10).

Se Filipe é um perene favorito nas etapas brasileiras, o campeonato também teve as suas surpresas. Num lado da chave que tinha Ítalo Ferreira, John John Florence, Gabriel Medina e um Sebastian Zietz mágico, foram Wade Carmichael e Ezekiel Lau os surfistas que chegaram à semifinal. O australiano avançou e ganhou o direito de ser a última vítima do brasileiro em Saquarema.

Julian Wilson, derrotado por Filipe na semi, vai para a Indonésia vestindo sozinho a camisa amarela. O campeão do Brasil é o segundo colocado e Ítalo é o terceiro no ranking masculino do WT.

A Barrinha se mostrou um problema difícil de resolver para os goofy-footers nessa sexta e nem Medina nem Yago souberam apresentar uma resposta.

Gabriel não conseguiu ser o surfista que esperávamos no campeonato inteiro. Passou baterias apertadas e arriscou, desde a rodada de abertura, um super-aéreo rodando que nunca veio.

Nas quartas de final, em direitas que pareciam mais rápidas, mais tudo-ou-nada que nos primeiros dias, não encontrou uma parede onde pudesse colocar o bom mas relativamente conservador backside que vinha o ajudando a passar as baterias até então. Não conseguiu entubar.

Wade Carmichael, ao contrário, emulou um Sebastian Zietz no começo do dia. Fez a leitura perfeita da Barrinha e entubou até dizer chega tanto nas quartas quanto na semi.

Wade é um surfista único no circuito. Não tem um patrocinador de renome, viaja sozinho – sem treinador, shaper, equipe, amigo, namorada, nada -, deve ser o top 34 que tem menos seguidores no Instagram e não fala quase nada nas entrevistas.

Longe de meter a marra de soul surfer que o kit cabelão+barba pode fazer parecer, cola no adversário sem problema nenhum quando precisa segurar um resultado, deixa o seu surf falar por si e quietinho, no cantinho dele, vai se consolidando como o rookie mais temido da temporada.

A bateria contra Medina teve um momento simbólico: logo no começo, com prioridade, Gabriel veio na primeira da série. Voou muito alto, girou até demais – aterrissou com a rabeta apontada pra praia, um 540 – e não completou. Deu tempo certinho dele se recompor na prancha, começar a remar pro outside e ver Carmichael tirando um tubão na de trás. No caminho, ainda tomou uma chuveirada do gringo. A bateria mal começou e já estava resolvida.

Yago Dora foi melhor que Medina, mas teria perdido para qualquer um dos regulares. No seu caso, foi Ezekiel Lau. O havaiano também entubou mais, manobrou mais e até arriscou uns aéreos.

Yago também tentou decolar. Quando o fez com sucesso, foi no finzinho da onda, um aéreo baixo, o tipo de approach que fazia parte do circo competitivo torcer o nariz para o surf progressivo uns dez anos atrás.

Antes disso, na primeira bateria do dia, Filipe Toledo e Kolohe Andino fizeram um duelo que teve o mérito de mostrar muito sinceramente a diferença entre os dois: Filipe um pouco mais radical, um pouco mais veloz, um pouco mais confiante. Bem melhor que seu amigo de San Clemente.

Na sequência, Michael Rodrigues pegou a sua vaga na semifinal, a primeira no seu ano de rookie, deu uma olhada, virou o rosto e entregou de presente pra Julian Wilson. Michael liderava com boa margem e tinha a prioridade quando inexplicavelmente deixou uma ótima onda passar. Julian dropou, entubou, manobrou, fez o melhor score do confronto e depois agradeceu o seu fã pela oportunidade de ficar mais um pouco na liderança do ranking.

Julian, por sua vez, não parecia completamente empolgado depois da bateria. “Consegui avançar, mas não estou satisfeito. Ainda não fiz o surf que eu queria. Queria ter completado aquele aéreo, mas ainda não rolou”, explicou o australiano a Strider após vencer Michael.

Parece que Julian pressentiu o que aconteceria na semi. Com duas sequências de tubo+aéreo, Filipe ultrapassou os 15 pontos antes da metade da bateria. Sem a opção de tentar notas medianas, o australiano foi para o tudo ou nada em cada uma das ondas que pegou a partir daí. Terminou a bateria com cinco pontos, mas vai defender a liderança do circuito em Bali e já com o ombro totalmente recuperado.

Na semi dos azarões, Lau e Carmichael dividiram uma dúzia de tubos entre si. A diferença entre os dois foi uma questão de pragmatismo: Lau tentou completar dois de seus tubos com grandes aéreos, como se fosse Filipe Toledo (surpresa: não é), e caiu nos dois; Carmichael manteve o plano original de sair dos canudos e dilacerar a onda com seu power surf muito bem encaixado, que não surpreende ninguém mas também não falha. Venceu o mais pragmático.

Até o evento de Saquarema, Filipe havia chegado em cinco finais e vencido as cinco – aproveitamento único entre os atuais membros do circuito. Seria Wade Carmichael o surfista a derrubá-la de seus 100% em decisões? Quem apostaria nisso?

Bem, ninguém, ou quase ninguém, deve ter apostado em Carmichael para chegar à final, e lá estava ele. Mas o fato é que a final é a final, Filipe Toledo é Filipe Toledo e Wade Carmichael é Wade Carmichael, etc etc.

Foi uma bateria de um homem só. Resolvida nos primeiros dez minutos, quando Filipe pegou uma onda de bom tamanho, carregou até o inside, botou pra dentro no maior tubo do dia e escapou pela portinha do cachorro com uma bela baforada nas costas. Podia ser 10 (para três juízes, foi). Saiu 9,93, e tanto faz o que ele faria depois, o concorrente não conseguiu nem passar dos oito pontos na soma.

RESULTADOS – OI RIO PRO – Último dia

Quartas de final
1. Filipe Toledo 13,84 x 11,93 Kolohe Andino
2. Julian Wilson 11,20 x 9,83 Michael Rodrigues
3. Wade Carmichael 11,40 x 3,63 Gabriel Medina
4. Ezekiel Lau 12,86 x 8,30 Yago Dora

Semifinal
1. Filipe Toledo 16,37 x 5,63 Julian Wilson

2. Wade Carmichael 13,17 x 9,27 Ezekiel Lau

Final
Filipe Toledo 17,10 x 8,00 Wade Carmichael

Ranking WT 2018 masculino

1 Julian Wilson 19.415
2 Filipe Toledo 18.075
3 Italo Ferreira 14.995
4 Gabriel Medina 14.160
5 Wade Carmichael 13.585
6 Ezekiel Lau 11.670
7 Owen Wright 11.575
7 Michel Bourez 11.575
7 Michael Rodrigues 11.575
10 Adrian Buchan 11.550
11 Mick Fanning 11.500
12 Griffin Colapinto 9.835
13 Kolohe Andino 9.740
14 Tomas Hermes 8.590
15 Frederico Morais 8.495
16 Kanoa Igarashi 8.240
17 Adriano de Souza 7.450
17 Conner Coffin 7.450
17 John John Florence 7.450
17 Sebastian Zietz 7.450
17 Jeremy Flores 7.450
22 Patrick Gudauskas 7.345

23 Yago Dora 7.250
25 Willian Cardoso 6.660
28 Ian Gouveia 4.960
30 Jessé Mendes 4.170