Por Steven Allain
HC #321, setembro/2016

Você provavelmente nunca ouviu falar de Nikko, uma das melhores direitas da Indonésia. Isso porque o secret spot era um dos mais disputados de Bali e quem sabia de sua existência, na maioria das vezes, mantinha o bico fechado.

Localizada na ponta sudeste da ilha, Nikko – batizada com o nome de um hotel próximo – era uma direita pesada, longa, rápida e supertubular. Nos melhores dias, havia sessões que corriam duas centenas de metros. Tubos de 10 segundos não eram raridade. Para alguns, era a melhor onda da Ilha dos Deuses.

Uma das razões pelas quais Nikko permaneceu um secret spot, mesmo tantos anos após a chegada dos surfistas na ilha, é sua localização. A onda que não existe mais fica na região de Nusa Dua – antes uma área pouco habitada, que atualmente abriga dezenas de gigantescos hotéis e resorts. Esses empreendimentos faraônicos – alguns com milhares de quartos – atraem turistas chineses e russos (que geralmente só viajam em grandes grupos) e espantam os surfistas (pelo preço alto, a farofa generalizada e a total desconexão com Bali que essa ‘modalidade’ de turismo pratica). Sendo assim, apenas quem conhece a Ilha dos Deuses a fundo sabia da existência dessa direita mágica, na terra das esquerdas.

A hoje lendária onda de Nikko. Uma direita parruda com inúmeras seções tubulares.

A hoje lendária onda de Nikko. Uma direita parruda com inúmeras seções tubulares. Foto: Trevor Murphy

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A verdade é que a recente onda de turismo em massa está destruindo Bali. Ônibus de excursão abarrotados de chineses e russos causam caos no trânsito. Seus hotéis gigantescos e suas piscinas oceânicas (em tamanho) usam quantidades absurdas de água, a principal razão pela crise hídrica atual, na qual metade dos 400 rios da ilha já secaram. A poluição chegou a níveis críticos, o lixo cobre a linha da maré e por aí vai…

Só que desta vez o progresso desenfreado foi longe demais. Os hotéis Ritz Carlton e Kempinski, situados bem em frente à Nikko, construíram – acredite! – um molhe, que vai da areia, até onde quebra (quebrava) a onda. Em questão de dias, e antes que alguém soasse alarme a surfistas locais e autoridades, a estrutura de pedra e cimento foi construída, estendendo-se até o pico, destruindo completamente uma das melhores ondas de todo o arquipélago.

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Imagem aérea do ridículo molhe construído pelo homem.

“O molhe ou píer, como queiram, vai da praia até o lineup!” revolta-se Dede Suryana, um dos melhores surfistas da Indonésia. “Eu surfava exatamente onde o píer está localizado agora. É de partir o coração… peguei tantos tubos lá, não acredito que Nikko foi destruída assim.”

O molhe foi construído apenas como uma passarela para que os hóspedes dos dois hotéis pudessem ver o mar “mais de perto”. “Fizeram esse absurdo para turistas ricos. Eles não ligam para Bali nem para sua população, estão destruindo o lugar,” continuou Dede.

A ONG Project Clean Uluwatu publicou em sua página de Facebook: “Essa multinacionais hoteleiras construíram esse absurdo simplesmente porque eles podiam e ninguém lhes diria o contrário. Esta é uma prática vergonhosa de uma marca de hotel que orgulha-se de que o impacto econômico e social local dos nossos hotéis podem ser geridos de forma positiva e responsável.”

Surfistas locais e a ONG Project Clean Uluwatu exigiram respostas das autoridades, mas provavelmente nada será feito. Assim como o Brasil, a Indonésia sofre com instituições e políticos corruptos e incompetentes. Assim como no Brasil, o dinheiro fala mais alto.

“Esse é o foco das pessoas ricas, que querem construir e construir e construir e ganhar mais dinheiro, mas quanto dinheiro você precisa?” conclui Dede Suryana. “Eles precisam apreciar o que têm, fazer um mundo melhor e não apenas destruir. É bom ter algum dinheiro, mas não para destruir o paraíso. Bali já era bonita sem o molhe. Queremos a ilha em sua beleza natural. Não construa sobre a natureza. Se você tem dinheiro e quer investir em Bali, por favor o faça com consciência.”

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