Depois de enganar toda a França com uma história mentirosa sobre façanhas no surf, Karim Braire tenta a sorte num mar de 40 pés em Nazaré

Por Redação HC

No último domingo, 18, dois dias depois do Nazaré Challenge, a WSL acertou em cheio ao manter seu aparato de transmissão no local e mostrar ao vivo, para o mundo todo, uma sessão de tow in dos melhores surfistas de ondas grandes no mundo em uma ondulação potencialmente gigantesca – grande demais para a competição, inclusive, que precisa ser na remada. A ondulação acabou não entrando com a direção ideal e perdeu muito do tamanho esperado. Ainda assim, a sessão rolou, com boas ondas surfadas com o auxílio do jet ski.

Eis que, no meio da sessão, aparece alguém remando no meio do line up. A primeira imagem é da pessoa sendo lavada por uma espuma gigante. Makua Rothman é uma das pessoas comentando neste momento e não consegue conter o riso. Ele diz que é porque sabe como é estar nessa situação, mas dá pra perceber que o riso é, na verdade, porque a pessoa em questão parece não ter ideia do que está fazendo. E, ao que tudo indica, não tem mesmo (assista aqui, a partir de 1:34:00)

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O surfista maluco que se jogou na remada no meio de uma sessão de tow in dos melhores big riders do mundo em um pico potencialmente mortífero é o francês Karim Braire. Também conhecido como o maior impostor do surf francês atualmente.

Karim ganhou atenção na França durante a etapa de promoção de seu livro. A biografia Zarma Sunset contava a história de um garoto da periferia de uma grande cidade que, até os 18 anos, sequer sabia nadar. Ao ver uma revista de surf pela primeira vez, se apaixonou à primeira vista e decidiu que essa seria sua vida. Pouco depois, o garoto humilde do subúrbio tinha um contrato assinado com a Quiksilver e havia se tornado um destemido big rider e um dos melhores surfistas do mundo.

Zarma Sunset, o livro de Karim Braire

A história emocionou o país e Karim passou a participar de diversos programas televisivos, inclusive no principal jornal da TF1, uma das maiores redes do país. Quase o equivalente a uma entrevista no Jornal Nacional.

De repente, a cena do surf francês começou a se tocar do que estava acontecendo. Ninguém conhecia Karim. Nem Miky Picon, ex-top do CT e chefe de equipe da Quiksilver na Europa. “Nunca encontramos nenhum traço de seu nome em qualquer contrato”, disse, em resposta à reportagem do site Neufdixieme.

Em um dos programas em que compareceu, as imagens de ondas grandes que usou eram, na verdade, da francesa Justine Dupont. “Um cara usar imagens de uma mulher para ilustrar suas “façanhas”! Deve ser algo inédito!”, divertiu-se a surfista no Twitter.

“Ele nunca foi um profissional. Certamente surfa, mas como os milhões de amadores mundo afora”, continuou Miky. “Apresentá-lo como um big rider, que surfa ondas de 20 metros, é algo inacreditável”, completou. Como ninguém havia checado a história antes?

A presepada toda veio à tona em 2017. De lá para cá, Karim segue tentando ganhar holofotes e ainda não se tornou um surfista profissional. Mas algo mudou: ele realmente se jogou em um mar gigante, no meio de uma sessão dos melhores big riders do planeta.

Usando uma camiseta do PSG e uma prancha claramente menor do que o necessário para enfrentar tais condições, não resta dúvida de que ele não sabia o que estava fazendo. Mas a vontade, o desejo, está tudo ali. Ou é só pelos holofotes? Existe algo admirável na coragem de se jogar num mar que pode te matar em nome de fama e reconhecimento?