Filipe Toledo e Gabriel Medina avançaram às quartas de final em um dia clássico de surf nesta quarta-feira (4) em Jeffreys Bay. Os dois brasileiros agora se enfrentarão valendo uma vaga na semifinal do Corona Open J-Bay, que deve ser finalizado na madrugada desta quinta. Julian Wilson, Jordy Smith, Wade Carmichael, Conner Coffin, Kanoa Igarashi e Sebastian Zietz são os outros surfistas que seguem na briga pelo troféu da sexta etapa de 2018 no circuito mundial de surf da WSL.

É difícil apontar apenas um destaque no dia. Filipe Toledo (na foto acima) parece carregar a mesma energia que o levou ao título com uma apresentação estarrecedora em 2017 nesta mesma onda. Conner Coffin, Kanoa Igarashi e Griffin Colapinto também foram bem. Julian Wilson, ao contrário, passou suas baterias com as menores médias entre todos os vencedores dos rounds três e quatro. Sem surfar muito bem, segue vencendo – e sabemos como isso é perigoso.

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Transmissão via Facebook: uma hora vamos acostumar

A transmissão online exclusiva pelo Facebook, que recebeu uma enxurrada de críticas nos primeiros dias e forçou um pedido de desculpas pela WSL, aos poucos começa a se estabilizar. A principal crítica agora é sobre o direcionamento geográfico do espectador à transmissão em sua língua materna. Grande parte do público brasileiro reclamou por não conseguir assistir à transmissão em inglês.

A locução em português do Brasil, comandada por Klaus Kaiser, Ícaro Cavalheiro e Neco Padaratz, é feita a partir dos estúdios da WSL em Santa Monica, na Califórnia, enquanto a transmissão em inglês é conduzida por Joe Turpel, Ronny Blakey e Martin Potter direto do palanque do campeonato, sempre com informações em primeira mão que acabam escapando às outras equipes.

Essa diferença não poderá ser superada, mas, aos poucos, para quem sempre assistia em inglês (como este que aqui escreve), é possível acostumar-se com a mudança. Começando pelo fato de que ninguém se importa em não ouvir mais uma palavra do Peter Mel.

Ícaro Cavalheiro é disparado o melhor da equipe brasileira, mas Neco também traz momentos interessantes. No seu ponto alto no dia, fez a seguinte comparação:

— O surf do Medina é como uma letra do Bob Marley. Com uma palavra simples ele traz uma ideia de um peso enorme.

Infelizmente também houve pontos baixos:

— Olha lá o Kanoa Igarashi… É… hoje ele não vai deixar a canoa na garagem, hein?!

Mas, como disse, vamos nos acostumando. A despeito dos trocadilhos, Neco tem o olhar de quem conhece cada detalhe do que acontece do outro lado da tela e foi uma boa adição ao time.

Qual é a melhor onda do circuito e por que é Jeffreys Bay?

Voltando ao surf, Wade Carmichael fez a primeira de uma série de ótimas apresentações no dia contra Jeremy Flores.

Na bateria seguinte, Wiggolly Dantas teve a chance de eliminar Julian Wilson e dar uma ajuda enorme a seus amigos Filipe, Medina e Ítalo Ferreira.

Ontem mesmo escrevemos aqui sobre surfistas que têm o benefício da dúvida, um estado normalmente passageiro de alguns atletas no circuito. Mikey Wright tem o benefício da dúvida. Julian Wilson tem o benefício da dúvida. Surfou com a prancha balançando, uma linha quebrada e perdendo quase sempre a parte mais crítica para manobrar. Wiggolly mostrou que seu surf é muito mais próprio para ondas de CT do que as do QS. Surfou melhor que Julian, mas perdeu nas notas. Acontece.

Não foi o caso de Willian Cardoso, que fez uma leitura errada durante toda a bateria, insistindo em uma entrada atrasada nos tubos. Kanoa Igarashi escolheu melhor entre as séries, pegou “uma das melhores ondas da vida”, em suas próprias palavras, e ganhou do brasileiro.

Antes disso, Filipe e Yago Dora fizeram a primeira bateria verde e amarela do dia. Filipe parece um foguete, imprime uma velocidade surreal sobre a prancha e, ao contrário de Julian, faz a leitura perfeita do local em que deve soltar o pé. A primeira onda de Yago foi excelente e deu a impressão de que ele poderia atrapalhar a vida do amigo. Não foi o que aconteceu. Depois de beirar os oito pontos no primeiro score, o rookie ficou perdido em um mar com séries demoradas e viu Filipe continuar o show.

Na bateria seguinte, foi Michael Rodrigues quem sofreu com a leitura do mar. Adriano de Souza combinou de maneira primorosa sua vasta experiência em J-Bay com o uso da prioridade para deixar Michael sem chances na bateria. Mineiro ainda fez uma onda linda, com aquelas cavadas de arrancar suspiros, que foi ridiculamente subvalorizada pelos juízes.

Griffin Colapinto fez sua melhor imitação de Joel Parkinson em um atropelo impiedoso contra Mikey Wright. De um lado, uma linha clássica e perfeita, em sintonia fina com as longas direitas; do outro, uma bateção de prancha afobada de quem parecia estar sempre perdendo a corrida para as sessões boas. Não teve benefício da dúvida capaz de salvar o caçula Wright hoje.

“Eu fico pensando no Joel antes de dormir”, revelou Griffin depois da bateria em que fez um 9,57, então a nota mais alta do campeonato. “Porque eu preciso sempre lembrar como ele surfa para fazer igual. Se eu esquecer um pouco como é, não consigo repetir quando entro na água”, explicou o californiano.

Na última bateria do R3, um duelo entre Medina e Connor O’Leary pela posição de último goofy na briga. O’Leary tinha quebrado na terça, mas não encontrou a magia novamente. Medina, ao contrário, espirrou caminhões de água para cima, cada jato costurado em uma linha sólida e pesada. Fez a segunda melhor nota da rodada, 9,30.

Gabriel Medina é o único goofy ainda na briga pelo título. Ele pode parar o atual campeão? 

No round quatro, Jordy Smith, Conner Coffin e Joel Parkinson fizeram uma bateria clássica, praticamente uma homenagem competitiva ao australiano. Jeffreys Bay deve ser a única onda que justifica a presença de Conner no circuito e o californiano fez questão de aproveitá-la ao máximo. Não é qualquer um que vence Jordy e Parko em J-Bay perfeito. Os três surfaram muito. Parko tinha acabado de fazer a última bateria de sua vida em uma de suas ondas preferidas e estava emocionado. Deu sua camisa de presente para Conner, que vai carregar o surf de linha pelos próximos anos no circuito.

Jordy, em segundo, acabou pareado com o primeiro colocado da bateria seguinte: Julian Wilson, vencedor em outro confronto com notas jogadas para baixo, dessa vez de Frederico Morais e Wade Carmichael. Se Tomas Hermes surfa contra um desses dois, o que vale é a linha, o peso; se é Julian, o que vale é velocidade e quantidade de manobras. Critério flexível. Wade passou em segundo.

Mineiro, Filipe e Sebastian Zietz (que passou direto no R3 devido à desistência de Owen Wright, vítima de uma súbita e fortíssima gripe, segundo KP) fizeram outra bateria sensacional, com séries constantes entrando e infinitas trocas de posições entre os três. Filipe esteve a um floater de tirar o primeiro dez do campeonato. Pra muita gente, já era um dez. Seabass acordou no final da bateria e eliminou Mineiro, que mesmo com o nono lugar chega mais perto de se garantir na elite em 2019 – seu já declarado objetivo para a temporada.

Seguindo a crescente, a última bateria do dia foi espetacular. Medina fez duas notas sólidas e disparou logo no começo, parecendo dominar a situação. Foi extremamente ameaçado pelos amigos californianos. Kanoa Igarashi mostrou um surf que ninguém imaginava que ele tinha – sólido e muito veloz, agudo sem sair de uma linha que parecia milimetricamente calculada. Quando ele e Griffin tiraram, na mesma série, uma nota maior que nove cada um, parecia que a virada sobre Medina era inevitável.

Kanoa Igarashi fez a melhor nota individual (9,67) e melhor média (18,04) de todo o campeonato até agora

Em sua onda, Griffin fez tudo aquilo que Mikey não entendeu em toda sua estada em J-Bay: sem nenhuma manobra progressiva ou espetacular, surfou em diálogo perfeito com a onda. Com uma execução perfeita da funcionalidade de cada movimento, usou as sessões mais difíceis a seu favor e fez, novamente, uma das melhores ondas do dia. Pode-se discutir se a onda era pra nota tão alta. Mas é inegável que foi um exemplo de como lidar com J-Bay.

Griffin precisava de sete pontos e simplesmente não teve nem chance de tentar. O mar, com suas séries repentinamente lentas, e Gabriel, com o uso perfeito da prioridade, jogaram juntos para garantir o brasileiro na segunda posição da bateria, apontando um duelo entre ele e Filipe nas quartas.

Foi um alerta para Medina: o peso das manobras e a linha concisa não bastam; se o mar não crescer, ou o local de Maresias acrescenta um pouco de velocidade e variedade à sua linha ou vai precisar de muita sorte para vencer Filipe.

O campeonato deve ser encerrado na madrugada desta quinta (5). A próxima chamada está marcada para as 2h30, no horário de Brasília.

Texto: redação HC
Fotos: WSL/Tostee/Cestari

Corona Open J-Bay – Resultados do round 3
5: Wade Carmichael (AUS) 16.77 def. Jeremy Flores (FRA) 11.70
6: Julian Wilson (AUS) 12.80 def. Wiggolly Dantas (BRA) 12.23
7: Filipe Toledo (BRA) 16.60 def. Yago Dora (BRA) 7.94
8: Adriano de Souza (BRA) 13.77 def. Michael Rodrigues (BRA) 10.84
9: Sebastian Zietz (HAW) def. Owen Wright (AUS) INJ
10: Kanoa Igarashi (JPN) 15.83 def. Willian Cardoso (BRA) 7.67
11: Griffin Colapinto (USA) 17.70 def. Mikey Wright (AUS) 11.67
12: Gabriel Medina (BRA) 15.63 def. Connor O’Leary (AUS) 14.20

Resultados do round 4
1:
 Conner Coffin (USA) 16.03, Jordy Smith (ZAF) 15.56, Joel Parkinson (AUS) 14.20
2: Julian Wilson (AUS) 13.66, Wade Carmichael (AUS) 13.00, Frederico Morais (PRT) 12.90
3: Filipe Toledo (BRA) 17.23, Sebastian Zietz (HAW) 16.13, Adriano de Souza (BRA) 15.23
4: Kanoa Igarashi (JPN) 18.04, Gabriel Medina (BRA) 16.50, Griffin Colapinto (USA) 9.50

Confrontos das quartas de final:
1. Conner Coffin x Wade Carmichael
2. Julian Wilson x Jordy Smith
3. Filipe Toledo x Gabriel Medina
4. Kanoa Igarashi x Sebastian Zietz