Por Igor Roichman Gouveia

A nona etapa do Circuito Mundial começou depois de uma longa, longa sucessão de lay days. O primeiro round foi para água naquele famoso chove e não molha. 1,5 metros, terral em um mar gordo-cavado com alguns tubos marcaram o primeiro dia. A disputa pelo título mundial já começou pegando fogo. Italo, Julian e Medina avançaram suas baterias com um surf sólido e jogaram toda a pressão para o líder do ranking Filipe Toledo.

Filipinho parece que sentiu a pressão após não acertar a linha em algumas ondas. Aparentou estar ansioso a partir do meio para o final da bateria, e deixou o resultado escapar precisando de um 4,40. Já comecei a imaginar que o título escaparia, perder de cara na melhor etapa do Medina ia ser arrasador para o resto da campanha. Que nada. No fim do dia, recuperou o foco e destruiu a bateria de repescagem.

Na repescagem e no terceiro round a WSL teve seu julgamento mais polêmico de todo o ano. Não lembro de ter assistido uma outra vez a tantas baterias seguidas com notas totalmente questionáveis. Coincidência ou não, todas com brasileiros.

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Tominhas, Italo, Yago e Ian, em baterias praticamente seguidas, sentiram-se prejudicados com o quadro de julgamento. Os quatro atletas demonstraram o descontentamento em suas redes sociais. Chororô de quem perdeu uma bateria apertada ou não, é no mínimo muito estranho uma sequência tão grande de baterias com resultados polêmicos, principalmente quando cada bateria pode determinar a reclassificação ou até definir o título mundial.

Deixar a disputa do título mundial para Pipe? Que nada, o importante é deixar o Matt Wilko no tour em 2019. Dane-se o Italo. Foi o que me veio à mente na primeira bateria do round 3. Não consigo entender, de outra maneira, aquela troca de notas no final do duelo. 6,47 para o Wilko em duas manobras de backside e 6,57 para o Italo em um bom tubo para as condições seguido de duas manobras. A onda do Italo era claramente 1 ponto maior que a nota do australiano.

Ficou claro que nesse final de ano os brasileiros não podem se dar ao luxo de fazer uma bateria apertada e querer passar. Sabe aquela história que o Kelly contou após a bateria entre JJF e Ethan Ewing no Pipe Masters 2017? Em que o “azarão” tem de ganhar de forma convincente o confronto contra o dono do cinturão, porque ele que é o desafiante. Então nesse caso a galera do fundão não pode dar mole. Tem quatro brasileiros subindo pelo QS, e pra WSL não somos negócio. Daqui pra frente, na minha visão, não vai ter conversa. Se não praticamente colocar o adversário na kombi, os juízes vão fazer aquela continha de décimos, e vão dar a virada.

A bateria do Filipinho, que tá a cara do Ragnar Lothbrok, foi a melhor bateria do evento. Eu particularmente achei que independente de quem passasse o resultado foi realmente um empate técnico. Até pra cima do Joan Duru o julgamento apertou. O que foi aquele 7,03 dado ao Julian Wilson no round 3? Uma piada? Não dá pra entender o que se passa na cabeça dos juízes, ou qual critério foi utilizado para aquela nota. Algumas baterias antes o Michael Rodrigues tirou 7,33 em um aéreo um milhão de vezes melhor.

Já na semi contra o Medina o 10 foi justo. O ângulo de rotação e onde o Julian colocou a prancha foram de um grau de dificuldade elevadíssimo. Pena que a imagem ficou horrorosa de assistir na hora. Apesar de ter sido um pouco baixo, a manobra foi incrível. Medina ainda tentou se recuperar na bateria, mas o mar estava muito ruim no momento. Ainda conseguiu uma combinação de aéreos em uma esquerda, porém a nota veio baixa. Um décimo a mais que sua primeira onda foi sacanagem.

A final, sei lá, ô bateria esquisita. Pediram um pause por causa da neblina, depois deram um 8,67 em um reverse do JW que não era pra tanto. O Ryan Callinan deu um puta layback que tirou 7 e no fim o Julian venceu.

Não me leve a mal, ele quebrou no evento, os dois surfistas da final mereceram suas colocações. Agora o julgamento quebrou o clima. Não existe mais um critério previsível. Cada onda pode sair qualquer nota, ninguém entende mais nada. A vida de quem está narrando os campeonatos tá bem difícil, teve bateria que a saída era chamar o break. O surf mais do que nunca precisa de uma mudança urgente no modo como é feito o julgamento. Os juízes não podem saber quanto o atleta precisa, tem que acabar com a posição de head judge e precisamos do VAR. O esporte precisa se revolucionar!

Igor Roichman Gouveia é colunista da HARDCORE.
Images: WSL/reprodução