Com quatro décadas de carreira, o havaiano Eric Arakawa difundiu suas pranchas pelo mundo, mas manteve tempo para continuar aquilo que o levou para o mundo de shaper: surfar.

 

Por Kevin Damasio
Retrato Alexandre Gennari

 

Na adolescência em Oahu, Hawaii, Eric Arakawa cansou de percorrer a vizinhança coletando garrafas para reciclar, ou limpando os quintais. Queria muito uma prancha de surf, que custava uns 125 dólares – uma nota para a época, em 1974. Certo dia, ele pensou na prancha do irmão, bem grossa. Sem pedir licença, pegou o shape, ferramentas do pai e fez uma bagunça na garagem de casa. Ficou empolgado com o que saiu após retirar o glass e moldar o bloco. Na hora de cair no mar de Diamond Heads, percebeu que ainda faltava muito para shapear a prancha ideal. Mas a semente brotou, os amigos fizeram as encomendas. Começava a história de um dos principais shapers do Hawaii e do mundo.

Eric Arakawa aprendeu a surfar com o pai, quando tinha 10 anos. Em Waikiki, usava uma mini-gun, 7 pés, round pin de Barry Kanaiaupuni. O esporte da família era o baseball, mas a decisão de se tornar shaper solidificou-se rapidamente. Em 1977, Arakawa começou a shapear para a Hawaiian Island Creations e, nos anos 1980, criou sua própria empresa, a Island Classics. Em 1995, ele concordou em shapear para a HIC, marca que comprou a Island Classics e suas licenças. Com isso, Arakawa encontrou mais tempo para ficar com a esposa e os filhos e, claro, fazer o que o levou para a sala de shape: surfar.

As pranchas de Arakawa ajudaram a consagrar ícones havaianos. O legend Michael Ho, na época Top 5 do mundo, tornou-se seu primeiro cliente, e Arakawa ganhou visibilidade e confiança no Hawaii. Depois, veio um jovem que prometia, Andy Irons, que se tornou tricampeão mundial em um trabalho que envolvia pranchas mágicas e muita amizade. O shaper havaiano afirmou-se e disseminou seu trabalho pelo mundo todo. A fábrica sede fica nos arredores de Waialua Sugar Mill, no North Shore. Já no Brasil, o trabalho é disseminado por meio do shaper Felipe Lucas, na fábrica da Surface em Camburi, no litoral norte paulista.

Na primavera, Eric Arakawa, 57 anos, esteve em São Paulo, à convite de Mauricio Fagundes, proprietário da South to South e dono das licenças das pranchas HIC/Arakawa no Brasil. Antes de voltar para o Hawaii – e, claro, à correria de mais uma temporada –, o havaiano parou na redação da HARDCORE, para contar sua história, a relação com Michael Ho e Andy Irons, as transições no mundo do surf e dos shapers e o que vislumbra para além da neblina da atualidade.

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Como é o processo que envolve o backshaper, para que você tenha braços precisos pelo mundo?

Bom, tudo começa com a comunicação. O backshaper é um shaper. Eu escolho cuidadosamente as pessoas com quem trabalho, que trago para minha equipe, seja no Hawaii, Brasil, França, ou em algum lugar da Austrália. Há três coisas que busco. Primeiro, eles precisam ter experiência, habilidade e precisam surfar. Nas minhas viagens pelo mundo, conheci shapers que não pegam onda, eram treinados para shapear mecanicamente. Como na China, onde há quem faça prancha sem nunca ter ido à praia. Há shapers que fazem pranchas para marcas que nem mesmo tocaram a água, ou subiram em uma prancha.

Para mim, o mais importante é que possam ver, como todo artista. Precisam ter a habilidade de ver algo antes que exista, como um fotógrafo, que vê a imagem antes de fazê-la, ou um pintor, um escultor. O trabalho precisa estar pronto na cabeça do shaper antes mesmo de começar. Elaborar o conceito e ver. A terceira coisa é ter vontade de aprender. Não importa se shapea há cinco ou quarenta anos, como eu. Você quer aprender. Às vezes dá um passo para trás, para dar dois adiante, mas esse é o processo. É a essência de todo artista: experiência, habilidade de ver o que ainda não existe, desejo de continuar a aprender. Nem todo mundo tem isso, mas para mim é muito, muito importante.

De que forma essa visão, essa habilidade de prever, se manifesta no shaper?

Como shaper, precisamos escutar o surfista, e também ser um tradutor. Temos de interpretar o que ele diz, porque surfista fala de um jeito mais teórico, esotérico, empírico sobre o que sente e o que quer, e muitas vezes não consegue expressar tecnicamente o que sente. Então, nós, shapers, precisamos ser bons ouvintes, fazer a vez do psicólogo, analisar e avaliar a situação e o surfista, o nível de habilidade. Às vezes, tenho de encorajar o surfista. “Ei, acho que você consegue fazer isso, é disso que precisa.” É muito comum fazer uma prancha um pouco acima do nível de alguém que é mais iniciante ou intermediário. Quando se fala em profissionais, é outra situação. Mas é tudo sobre melhorar a performance e ajudar a entregar a experiência que o surfista quer.

Como foi o trabalho inicial com o Felipe Lucas, seu backshaper no Brasil, na fábrica de Camburi (SP)?

Ele veio para o Hawaii para ver o que fazíamos, aprender sobre os modelos, falar sobre shapes e pranchas. E, quando voltou ao Brasil, não dissemos: “Ei, daqui dez anos falamos”. Não é assim. As coisas mudam a cada ano. Todo mês fazemos coisas novas. Então sempre estamos em contato. Ele veio para o Hawaii no inverno passado, agora estou aqui em São Paulo. Ele voltará para lá daqui alguns meses. E temos a tecnologia, o Skype, as mensagens. É mais fácil. Pego meu celular e mostro uma prancha… Não é tão bom como estar presente. Mas há programas em que você pode compartilhar as telas, remotamente, ao vivo, e posso mostrar um arquivo em 3D, e ele ver no Brasil, 10 mil quilômetros distante.

Penso que nos conectamos muito rápido. Com alguns shapers, leva mais tempo. Mas é um processo contínuo. Felipe é meu backshaper aqui no Brasil, mas somos uma equipe que se comunica, que fala sobre as mesmas coisas. Os clientes nem imaginam, mas é uma navegação constante. Caminhamos para um objetivo, a uma experiência, com várias séries de ajustes para continuar no percurso. Se Felipe e eu não nos comunicarmos, entramos em deriva. E a tecnologia de hoje deixa tudo mais fácil do que 20 anos atrás.

Há quanto tempo você faz prancha para o Brasil?

Vim pela primeira vez há 20 anos. Não sei o que é, mas há uma conexão entre Brasil e Hawaii. O primeiro brasileiro que conheci foi o Horácio Seixas, que agora é naturalizado americano. Ele vive no Hawaii há muitos anos, o conheci na adolescência, acho que em 1979, 1980. Um cara incrível, empolgado. Foi minha primeira apresentação ao brasileiro. Era um urso gigante adorável (risos). E então vim para o Brasil, pela primeira vez, e pensava: “Uau, muitas pessoas são desse jeito aqui”. Fiquei no Guarujá. Shapeei 100 pranchas, à mão. Foi uma ótima experiência, grandes lembranças, conheci muita gente boa. Fiz pranchas para o Taiu Bueno. Foi incrível.

Você lembra a primeira prancha que shapeou?

Eu tinha 14 anos quando fiz minha primeira prancha. Minha única motivação para começar a shapear foi fazer pranchas para mim. Não visualizava nada além disso. Era muito novo para conseguir um trabalho, nada de grana. Meus pais não me davam nada. Diziam: “Você precisa trabalhar e valorizar cada coisa”. Então eu chamava as pessoas, perguntava se podia limpar o jardim em troca de algum dinheiro. Eu e meus irmãos andávamos pela vizinhança para coletar garrafas de cerveja, água, para conseguir um dólar.

Quanto era uma prancha na época?

Uns 125 dólares. Era impossível. Então, decidi: “Vou fazer uma prancha”. Tenho dois irmãos, sou o mais velho. Um deles tinha uma prancha muito, muito grossa, e não surfava tanto. Peguei a prancha, algumas ferramentas da caixa do meu pai, tirei todo o glass até ter apenas o bloco, e o usei para shapear minha primeira prancha. Foi muito divertido fazer isso. Adorei trabalhar com as mãos, pensei que estava linda. “Uau, cara, talvez eu tenha um talento especial para isso. Não vejo a hora de surfar com essa prancha!” E então fui para o mar, e era horrível. Até hoje, foi a pior prancha com que já surfei na minha vida. Sem dúvida. A segunda pior não chega nem perto.

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Como foi aquela sessão?

Foi frustrante. Surfei em Diamond Head e outra vez em Pupukea. Não peguei onda, ela puxava tanta água… Mas isso me deu uma rápida valorização de ter uma prancha boa (risos). Faz a diferença. Queria ter guardado aquela prancha. Fiz à mão, sem as ferramentas ideais, na garagem dos meus pais. Uma bagunça, mas era meu bebê. 

Como foi o processo de virar shaper?

Logo depois de fazer aquela prancha, um grande amigo pediu para fazer uma. Não sei no que ele estava pensando, porque minha primeira era terrível. Mas fiz para ele e a prancha ficou um pouco melhor. Depois, outro amigo pediu, e então um amigo desse amigo, e pessoas que eu nem conhecia. Um dia, percebi: “Acho que montei um negócio”. Cobrava um valor pequeno, não lucrava quase nada, mas… Continuei ao longo do colegial. Na faculdade, já levava mais a sério como shaper. Fui para o Japão, fiz algumas pranchas, e isso abriu meus olhos. No segundo ano, decidi: vou abandonar a faculdade e me dedicar a isso em tempo integral. Comecei a viajar e shapear. Abri uma empresa. Lembro de quando voltei para a casa dos meus pais, e pensava: “Vou contar a eles que vou sair da faculdade”. Minha avó estava lá, de visita. Momento inoportuno. Ela soube que eu deixaria a faculdade e ficou muito desapontada. Era algo grande um bom tempo atrás.

Seus pais concordaram com isso?

Ah, eles não queriam. O surf, no começo, foi um desapontamento, principalmente pelo abandono da faculdade. Mas mesmo antes, quando eu era criança e jogava baseball. Meus irmãos jogaram no colegial e na universidade, e era o esporte da família. Meu pai nos treinava. E, então, eu comecei a surfar, e acabou.

Ninguém da sua família surfava?

Nós íamos a Waikiki e meu irmão pegava onda, mas era algo paralelo. Baseball era o esporte. Um dia, no treino, eu vi meus amigos dirigindo para o North Shore, para surfar. Estava calor, fui para casa e disse para meu pai: “Vou parar de jogar baseball” (risos). Ele disse: “Você terá de ligar para seu treinador e falar que vai parar”.

Como era a cena dos shapers no Hawaii quando começou?

Eu admirava shapers como Dick Brewer, Tom Parrish, Gerry Lopez, Ben Aipa. Havia muitos shapers. E então comecei a fazer pranchas para o Michael Ho. Comecei a me interessar por designs de shapers de outras partes do mundo, influenciados pelas ondas do próprio país, e também pela própria cultura, como o Rico de Souza. Não tinha ideia que a cultura do entorno dos picos de surf afeta como você shapea, como aconteceu, por exemplo, nos anos 70, 80, com californianos, australianos, brasileiros, havaianos. É interessante.

As pranchas desses shapers eram acessíveis para a maioria dos surfistas?

Para comprar uma prancha? Depende de quem. Se quisesse uma Brewer, seria mais cara, sempre. “Ah, nunca conseguirei comprar um Brewer”. Sempre quis, e ainda quero. Vou comprar uma antes que ele pare, e pendurarei na minha parede.

No Hawaii, em que momento a cena das pranchas deixou de ser um negócio de quintal para se tornar uma indústria?

Nós a chamávamos de cottage industry. Então, muitos caras shapeavam nos quintais. Você conseguia se manter ao alugar uma casa e usar a garagem para trabalhar. Ganhava o suficiente para comer, pagar o aluguel e surfar o máximo possível. Mas as coisas mudam, você precisa assumir a responsabilidade, se casar, ter filhos e tudo isso. As coisas se desenvolvem conforme o surf cresce, somos forçados a fazer coisas mais corretas e aprender como administrar um negócio. Não sei se teve um tempo exato de transição. Foi algo gradual e também por pressão das comunidades locais, que não queriam o cheiro de resina e o barulho. E o shaper também se cansou de fazer daquela forma. “Só posso vender tantas pranchas nesse tipo de lugar; posso alugar uma residência comercial e ampliar minha produção.” Para mim, uma parte disso foi que eu queria fazer as coisas dentro da lei e direitas. Queria ser um exemplo para a comunidade, e não ficar na região cinza. Sai mais caro assim, mas…

Michael Ho foi o primeiro surfista profissional com quem trabalhou?

Sim, nesse nível, ele foi o primeiro. Lembro que eu fiquei bastante intimidado. “Uau, é o Michael Ho!” Ele era Top 5 do Tour naquela época. Era o melhor surfista a sair do Hawaii. Eu não estava preparado. Era um nível diferente, e precisei prestar atenção e aprender bem rápido. Até hoje, ele é o surfista mais detalhista com quem já trabalhei. Aprendi que precisava prestar atenção aos detalhes. Eu tinha 17, 18 anos quando shapeei a primeira prancha para ele. Foi estressante, ele era durão. Quando finalmente terminei a prancha, ele disse: “Funciona bem, mas não consigo vencer com isso.” Não era boa o suficiente. Ele me mostrou pranchas que funcionaram. Às vezes, eu nem dormia, mas foi a melhor coisa que aconteceu comigo na época. O timing era perfeito e foi uma lição de humildade.

Como sua carreira se desenvolveu depois do Michael Ho?

Fazer pranchas para o Michael Ho foi algo enorme para mim. Se tivesse uma prancha boa, Michael contava para as pessoas. O lance do Michael é que ele não era apenas exigente; ele sabia do que falava, entendia de prancha, conhecia a ciência por trás dos shapes. É o cara com mais conhecimento com que já trabalhei, e ainda sabe do que fala. Então foi uma base que abriu portas para outros surfistas.

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Sobre o surfista saber o que quer, você vê isso com mais frequência nos profissionais de hoje?

Não, isso é incrível! Na verdade, é pior, honestamente, porque o lance é o seguinte: agora, há dinheiro de verdade, eles têm grana. Antes, não tinha muita, então, quando os caras compravam pranchas, só pegavam algumas. Quando Michael comprava, se tivesse a mágica, seria seu bebê, ele tomaria conta. Lembro de ver um grommet colocar a prancha em um chão de pedras, com o fundo para baixo. Michael foi para cima: “Nunca ponha uma prancha com o fundo para baixo no chão!”. Ele valorizava as pranchas boas. Hoje, tenho visto algumas casas dos mais jovens no North Shore, um quarto de pranchas e, sem brincadeira, com pilhas altas. E vejo algumas fábricas… “Ah, não temos tempo para fazer o trabalho com os surfistas, então mandamos 20 5’11”, todas iguais, e ele escolhe a melhor.” Parece que não há mais tempo suficiente. Os surfistas costumavam entrar na sala de shape e conversar, existia esse relacionamento. Eu ainda encorajo isso, faço o máximo possível. Por outro lado, com o Tour, os surfistas estão mais ocupados e a temporada é longa, as férias são curtas, diferentemente de outros esportes como baseball e futebol, nos quais há tempo para treinar, relaxar, curar as lesões. Não há muito tempo para desenvolver equipamentos para os surfistas.

Quão importante é a parte do artesão nas pranchas, para além do uso das máquinas?

É importante. As máquinas são grandes ferramentas. Você coloca a informação e conseguirá aquela prancha. A experiência será a base, o conhecimento. As pessoas podem simplesmente copiar pranchas em suas máquinas, há muitos shapers que nunca fizeram à mão. Eu fico feliz por fazer, mas definitivamente hoje não é mais necessário. Como disse, o que é realmente importante para o shaper é ser capaz de ver, criar o conceito. Mas, para isso, é necessário ter experiência, saber o que é certo, que combinação funciona, o que rola para esse surfista, para aquele, para essa condição, e por aí vai. Ainda não tem uma graduação em design de pranchas de surf, mas é uma ciência.

Conforme recebia mais encomendas, surgiam mais clientes, como equilibrou o tempo entre o lineup e a sala de shape?

Esse é um dos paradoxos da vida. É como uma piada que, às vezes, precisa ser construída – e ter um bom senso de humor para dar risada. Minha única motivação para fazer minha primeira prancha foi tê-la para surfar. Mas eu gostei, e anos depois desenvolvi um negócio e fiquei muito ocupado. (Como agora, que tenho que voltar ao Hawaii, porque estamos superocupados com swells.) Foi um longo tempo atrás, mas eu percebi que tinha trabalho demais e isso me desgastava. Percebi: “O motivo pelo qual entrei nisso foi querer surfar. Mas meu negócio é fazer as outras pessoas irem para a água” (risos). É uma inversão. Mas o lance é passar por isso e elevar sua empreitada a um nível onde aparece mais tempo, mais ajuda, uma ótima equipe. Não apenas para surfar, mas para aprimorar a experiência dos clientes. Por que farei isso se não posso surfar? Eu pego onda nos finais de semana e depois do trabalho, até escurecer. Mas, se estiver muito bom, eu não entro na empresa. É difícil, porque fico muito cansado após surfar quatro horas.

Andy Irons foi o cara mais memorável com quem trabalhou?

Em relação a talento puro e competitividade, sim. Ele vinha com problemas em suas pranchas, e tinha terminado a relação com o patrocinador… Eu conhecia familiares e ele, de vez em quando vinham para o North Shore, para competir. Um dos groms do meu time era amigo dele. Quando vinha do Kauai para o North Shore, ficavam todos juntos. Foi assim que conheci o Bruce e o Andy, quando tinha uns 14 anos. Cinco anos depois, ele precisava de um novo patrocinador. Conversei com o primo dele, que trabalhava para a revista Surfer. “Ei, estou disposto a fazer algumas pranchas para o Andy e ver como saem. Sei que ele tem tido problemas.” A gente se conectou e foi isso.

Hoje, você trabalha com surfistas que trazem tamanho conhecimento e talento como Andy e Michael, que aumentam seu aprendizado como shaper?

Cara, tem tantos! Como o jovem Jack Robinson, que é incrível em ondas de consequência. Mas Andy era único, e muito pilhado. Alguém de quem eu era próximo. Os outros pros normalmente vêm e pegam pranchas como qualquer outro, mais casuais. Não do jeito de Andy. Eu pude saber mais de suas forças e angústias, e algumas vezes de suas frustrações. As paixões e o que ele queria fazer, mesmo antes de se tornar campeão mundial. Passamos muito tempo juntos, e sabia como era em casa e o que era importante para ele, tudo em um nível de amizade.

Que tipo de legado o Andy deixou para você, para as pranchas, para o surf?

Boa pergunta. Uma coisa… é realmente prestar atenção ao que seus amigos estão fazendo, e não ter medo de perguntar como estão. Realmente se aproximar. O lance com o Andy é… ele era tão popular naquela época! Nos Surfer Poll, ele passava o Kelly, que era o rei. Andy era o número 1 do mundo. Mas todo mundo queria um pedaço dele. Todo mundo queria ser amigo. Era difícil, era demais para ele lidar. Eu acho que ele não gostava disso. Por mais forte que fosse na água como competidor, em terra o Andy era um pouco inseguro. Lembro de ter uma conversa com ele, depois de ter saído do Tour e ter ganhado vaga de wildcard. “Vou tirar um ano de folga, isso é demais para mim!” Ele precisava, diante de todo estresse. Fui para a casa dele. O Andy estava sozinho, em um momento mais calmo. Como se sente de voltar para o Tour? “Ah, estou muito feliz, muito ansioso por isso, estou empolgado.” E como é botar a lycra de novo? “Estou bem, essa é a parte fácil – vestir a lycra e surfar uma bateria”, ele disse. “Quando volto para terra é que o sacrifício começa.” Que tipo de sacrifício? “Pessoas, tentações, o que pensam sobre mim e tudo isso. Então é aí que eu sofro. Na água, estou em casa, bem.” Essa lição não serve apenas para surfistas profissionais, é para todas as pessoas que nos cercam. A vida perde o significado sem os relacionamentos. É o que importa. Não o que temos, não as coisas materiais, não o que conquistamos, mas as relações que nos abençoaram. Então, a lição é escutar o que está acontecendo e se dispor a ajudar.

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Quando começou a expandir seu negócio pelo mundo?

Eu tive uma marca chamada Island Classics, e foi aí que comecei a fazer pranchas para o Japão, Austrália, Europa. Na época, senti o gosto do que é ter uma empresa, e percebi: “Isso pode fugir do controle”. Algo que poderia me manter longe do mar. Isso volta à essência dessa entrevista. Percebi que uma empresa bem sucedida envolve ter boas pessoas, uma boa equipe. Minha formação na faculdade era Business. Para mim, as aulas eram fáceis. Conseguia boas notas. Quando saí para começar minha empresa no mundo real… “Uau, isso não é como na sala de aula. É muito diferente”. E percebi que se trata de lidar 25% do tempo com dinheiro e 75% com pessoas. O mais importante é a equipe. Amar as pessoas e usar o dinheiro, e não o contrário – é isso que toda empresa precisa, a fundação.

Que impactos pode haver no surf com as Olimpíadas?

É uma questão multifacetada, porque pode ir para qualquer lugar. Muitas pessoas dizem: “É bom, vai legitimar nosso esporte”. Outro grupo pensa: “Irá ultracomercializar nosso esporte, para longe da essência”. Do ponto de vista do empresário, é bom. O fator desconhecido, wildcard, são as ondas. O primeiro evento será no Japão, e eu conheço a praia. Estive lá em setembro. Na época do ano dos Jogos, pode ficar flat. Ter ondas será questão de sorte. Se introduzirem o surf para o mundo e as ondas estiverem minúsculas… As pessoas vão bocejar e mudar para outro esporte. Então, de um ponto de vista comercial, pode ser bem arriscado. Mas só de estar nas Olimpíadas, só de o Comitê Olímpico Internacional ter votado “sim” para o surf – isso já é algo grande.

Como havaiano, com a história de Duke Kahanamoku, o pai do surf moderno e medalhista olímpico de natação, as Olimpíadas têm um gosto diferente? O Duke ficaria feliz?

Quer saber? Eu acho que ele ficaria, porque o Duke era olímpico. Ele era surfista em primeiro lugar, mas ficou famoso por causa das medalhas de ouro nas Olimpíadas. E, no meio tempo, introduziu o surf em Manly Beach, na Austrália – o pai do surf moderno. Se pudesse ver isso, penso que ele ficaria orgulhoso. Ele amava o surf e era um embaixador, então levar o surf para o mundo por meio das Olimpíadas… Tiro meu chapéu para todos do surf competitivo que trabalharam duro para inserir o surf nos Jogos. Não é fácil, mas é um progresso.

Sobre as nações nas Olimpíadas, como será a diferença entre americanos e havaianos?

Bom, ainda é o mesmo país. Culturalmente, somos muito diferentes. Mas se houver havaianos, estarão lá sob a bandeira americana. Ainda somos americanos, mas muito, muito diferentes culturalmente – e bastante orgulhosos disso. Para a ISA, que promove a disputa mundial entre nas nações, o Hawaii é uma só nação. Não sei, vai que eles sigam o método da ISA?

Vivemos um marco no surf profissional com a piscina do Kelly Slater, The Ranch. Como essa perfeição constante das ondas pode mudar o mundo das pranchas? Pode alavancar a performance?

O que você faria se tivesse uma piscina de ondas privada, no quintal? E se surfasse todo dia e tentasse a mesma manobra? Pensa que melhoraria? Há quem diga “Ei, isso não é natural, não é água salgada, devemos permitir? Considerar legítimo?” Que surfista profissional, com dinheiro em mãos, negaria se alguém lhe dissesse: “Ei, vamos fazer uma piscina para você treinar”? No mínimo, pode ser uma ferramenta incrível de treinamento, para depois transferir para o oceano. Na competição, eu não sei. Teremos circuitos separados? Talvez um cara de academia do Nebraska, no meio dos Estados Unidos, se torne campeão mundial. Ou o Fabio de Brasília, porque surfou em uma piscina 300 quilômetros distante do oceano. Não sei o que responder no momento.

Nos shapes, especificamente, essa repetição pode melhorar o conhecimento?

Pode. Você viu o vídeo do Filipe Toledo na onda do Kelly. E eles mudaram a onda, não é sempre a mesma coisa. No ano passado, em maio, conversei com um cara que desenvolve outra piscina de onda, já iniciada na Austrália. Não é como a do Kelly. Uma grande torre no centro da piscina cria um anel concêntrico empurrado para diferentes fundos: um point, um slab, uma onda mais fácil, para iniciantes, direitas e esquerdas ao mesmo tempo. Podem produzir cem ondas por hora. Eu quero isso no meu quintal. Poderia surfar à noite, depois do trabalho. Só precisa de alguém com dinheiro para dizer: “Vou fazer isso”.

Para terminar, qual será o próximo grande passo nas pranchas?

Olhando pela neblina, eu diria que mudará a construção da prancha. Mas isso requer dinheiro, tempo e coragem para se separar do crowd e fazer algo novo. Com outros materiais aplicados e tecnologia, cria-se diferentes propriedades e reações. Então provavelmente teremos que mudar os shapes. Com o que temos hoje estamos bem no limite em relação à geometria. Mas, quando começarmos a usar diferentes materiais, talvez percebamos que não estávamos tão no limite assim. Poderemos ver pranchas com caras distintas. Acredito que é nesse caminho que precisamos seguir. Já fazemos algumas coisas, mas, se eu soubesse exatamente o que será, já estaria fazendo, com certeza. 

 

Esta entrevista foi originalmente publicada na HARDCORE #334, de novembro de 2017.


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