Por Tiago Brant | Fotos Marcio Canavarro
De Oahu, Hawaii

 

Cheguei em Turtle Bay pela manhã de um dia nublado e ventoso, como foram quase todos os dias dessa temporada havaiana. Mas ensolarado mesmo foi a missão de encontrar o casal Gouveia e ter aqueles momentos agradáveis, porque eles de fato são assim, alegres.

Meu foco era a Elka Gouveia, mulher de Fábio e verdadeira dona do pedaço. Fábio Fabuloso foi o melhor surfista que o Brasil produziu antes da Brazilian Storm. Aliás, quem passa pelo Campeche, em Florianópolis, percebe que ele ainda é fabuloso, surfando com maestria quase todos os dias.

Foi ele o primeiro a se sagrar campeão mundial, na versão amadora, em 1988 durante o mundial da ISA. A façanha foi uma surpresa para muitos, menos para Elka, que ainda não era Gouveia, mas já era sua namorada. Ela morava em Recife (PE), enquanto ele já estava perambulando por várias cidades do Brasil e do mundo, quando se conheceram, há mais de 30 anos, no outside de Maracaípe, em Pernambuco.

Fabinho usou os xavecos mais descarados para conquistar Elka e, por incrível que pareça, conquistou seu coração. Mas essa história é melhor se ouvida com as palavras da própria Elka, grande protagonista desta entrevista e também da história de Fabinho, dos seus filhos Igor e Ilana, e de Ian, que garantiu sua permanência no WT em 2018, com uma performance avassaladora no Pipe Masters, para o orgulho da mãe coruja. 

Fabio Gouveia sempre levava a família para as etapas do Tour. Agora na elite, o filho do Fia mantém o ritual familiar.

Brant: Elka, como você conheceu o Fabinho? O tempo passa rápido? Parece que foi ontem?

Elka: Surfando em Maracaípe. Já perdi as contas, mas tem mais de 30 anos. Não sei, viu. Para mim, acho que não sinto tanto o tempo. Eu não sinto no meu corpo, mas a gente vai sentindo sim que o tempo passa muito rápido e tem coisas que eu nem lembro mais.

É muito tempo juntos, né, 30 anos. Como foi o primeiro encontro?

É, muito tempo. Eu sei que o conheci desse jeito, palhaço, dando em cima de mim com umas cantadas que, hoje, se alguém der uma cantada dessas numa mulher, vai preso. O negócio está chato. Estava na água, remando, para voltar para o outside. O Paraíba estava entrando. Lá em Maraca. Os dois estavam acampando. Ele olhou para mim e disse que eu tinha uma bundinha linda. Eu olhei e o achei bem folgado. Mas não tem como não rir da cara de Fabinho. Não tem como levar para o mal. Hoje, se fizerem isso, meu Deus, tenho até pena de quem ousar fazer um negócio desses. Imagina, eu tinha 16 anos. Estávamos acampados, né, ninguém sabe. Estávamos escondidos, como sempre, no meu tempo, não se tinha a liberdade de hoje. Menina viajando com o namorado jamais.

Elka, mas você estava com um namorado?

(Risos) Não. Graças a deus, não. Só amigos. E aí, quando eu saí, ele me seguiu. Eu estava tomando uma chuveirada e ele perguntou onde eu tinha nascido. Ai, essa é ainda pior. Eu falei onde eu tinha nascido e ele disse: “Eu nasci no mesmo dia que você. Tá vendo? Você nasceu pra mim”. Eram tantas cantadas. Eu não sei como ele arrumou tantas namoradas.

Nascemos no mesmo dia, acredita? Ele foi buscar a identidade, me mostrou que realmente tinha nascido. Só que eu sou mais velha, eu nasci de manhã e ele à tarde. Então foi ele que nasceu pra mim. E assim começou.

Não existia internet, e-mail, nada. A gente ficou um dia, de vez em quando ele arrumava carona para ir para Recife e aí começou o namoro. Era muito caro ficar no telefone, não poderia passar de dois minutos, se não eu apanhava, porque era muito caro. Telegrama, carta. Eu acho legal. Eu sou desse tempo e valorizo quem faz isso ainda hoje. Eu acho tão romântico. Hoje em dia tudo é digital e é meio sem noção. Não é a mesma coisa que você escrever. Hoje ninguém mais lê livros. Todo mundo lê pelo diabo da internet, não tem a menor graça. Eu gosto de pegar no papel, sentir o livro, ler, parar naquela página. Eu sou das antigas. E eu estou com o Paraíba até hoje. 

A família Gouveia esteve no North Shore, em uma vibe que impulsionou o rendimento de Ian no Pipe Masters.

Elka, vocês constituíram uma família linda, como foram os primeiros anos? Você logo sentiu que ele tinha um talento diferente para o surf? Porque o Fabinho, na geração dele, foi incrível. 

Quando a gente namorava, ele já era incrível, surfava muito. Só que naquela época, existia certo preconceito com nordestinos. Fabinho nunca levou bullying, preconceito e essas coisas para o lado pessoal, nunca. Isso passou batido em nossas vidas. A gente nunca deu bola, sempre levamos na brincadeira. Se ele fosse uma pessoa que desse bola para isso, estava lascado, porque ele passou por muita coisa. Inclusive, ganhar etapa e não darem para ele. E várias vezes, foi bem difícil. O caminho de Fabinho foi guerreiro.

Você, ao mesmo tempo, praticava o esporte e competia também?

Competia também. Éramos tipo essas duplas mais famosinhas de hoje. A bodyboarder, que agora não tem mais, hoje é o surfista e a surfista mulher. Tipo Jessé Mendes e Tatiana Weston-Webb. Não sei se eu disse o nome dela certo, inglês não é comigo. Aliás, no estrangeiro por aí, eu me viro para comer, não vou passar fome. Para viajar converso um pouquinho, mas com muitos gestos, muita mímica, uma loucura. Eu sempre tive dificuldade para aprender. Eu sou boa em falar, leio bastante, mas eu tenho muita dificuldade com aprendizagem. Eu não sei se hoje em dia eu poderia ter alguma dislexia, alguma coisa assim. Às vezes, eu pulo palavras, eu passo batido. E eu tive muita dificuldade.

O meu inglês é muito engraçado. Totalmente nordestino. Eu não posso abrir a boca, que minha filha Ilana e meu filho Igor se jogam no chão de rir. É bullying em casa. Mas eu tiro de letra. Eu não ligo.

Não ligo para nada. Ligo para quem está perto de mim. Para mim, o que os outros vão falar é consequência.

Elka, quando percebeu, à medida que vocês foram se relacionando, que você passou a viver em função da carreira do Fabinho e depois em função dos filhos?

Quando eu tive o Igor, eu ainda corri uma etapa, um campeonato, em Recife, cheio de tubarão. Já tinham os ataques de tubarão, quando começou. Tinha barquinho lá dentro para ficar olhando. Só que todo mundo ficou no outside e eu fiquei na beira, morrendo de medo de tubarão. Quando eu perdi, falei: “Nego, quer saber, é melhor tu só trabalhar surfando. Primeiro, porque bodyboard não dá dinheiro. Eu não tenho como comprar uma lata de leite. E eu não sou tão boa assim, não sou uma Mariana Nogueira – meu ídolo”. Competi com ela de perder todas as vezes. Mas é minha amiga e eu sou apaixonada por ela e pela Belinha até hoje. A Glenda também, para não ter ciúme. Mas Fabinho que ia colocar dinheiro, né, eu não tinha como botar dinheiro em nada. Isso foi em 1990. Quando ele conseguiu entrar no Circuito Mundial. Ele já entrou com filho, foi tudo com filhos, que nem o Ian. Eu acho que é mal de família. Ou melhor, é bem de família, mas é que as pessoas falam tão mal de quem quer ter filho, de quem quer ter filho cedo.

“Teve filho, acabou a carreira”, nada. Às vezes é um começo. Porque a pessoa tem que botar o leite da criança. Então tem que cair na vida mesmo, trabalhar.

Você vê, o Willian Cardoso, 32 anos, está aí. Entrou com filho também o Pandinha. 

Retrocedendo um pouquinho, como foi o mundial de 88?

Eu não estava com ele nesse mundial. A gente era amigo. Foi antes e depois do mundial. Foram muitas etapas, muitas. Foi um “vai e acaba” e depois ficou. Ficamos de vez quando meu filho nasceu. Até então estávamos na corda bamba. Não morávamos na mesma cidade, era complicado. Quando ele me mandava carta, ela chegava junto com ele. De onde ele estivesse a carta chegava junto. Então, eu não sabia de nada. 

E quando vocês começaram a viajar juntos para as etapas de Circuito?

Quando o Igor nasceu. Já pequenininho começou a ir junto. A primeira viagem foi para o Guarujá e Fabinho ganhou. A segunda viagem foi para o Hawaii. 1990 foi o Hawaii ou foi 1991 que ele ganhou? Agora lascou. Não, em 1990 ele entrou para o Back 14, foi o ano que eu fui para o Hawaii. No outro ano, ele entrou para o Top 16. Tudo com filho. Veio o WCT e depois o Ian. Um pouquinho depois. Acho que foi um ano, dois depois. Juntos. Desde que eu namorei, por um ano, depois foi repartido por etapas e depois já foi fixo. A vida inteira. Não é fácil manter um casamento. Teve muita briga, panelada, teve de tudo. Essa coisa de ciúme era rara, porque isso é tranquilo para a gente. É coisa de família, briga e confusão de família. “Vou embora, vou pegar minhas coisas”, sempre que ele brigava comigo por alguma coisa. Era normal, família normal, mas com muito amor. Não tinha como acontecer alguma coisa. Era muito firme o que a gente queria e sentia.

E, apesar de não estar surfando nas baterias junto com o Fabinho, você viveu essa carreira. Você se sente responsável pelas conquistas dele e, agora, dos teus filhos?

Sinto, sinto mais de Fabinho. Eu acho que quem está ao lado do Ian é a Mayara. Ela é a culpada de tudo. O Ian começou a ir bem depois dela, depois da minha neta. Ela transmite uma calma que eu não tenho, eu sou muito afobada, muita energia e ela é mais centrada, mais tranquila.

No caso de Fabinho, eu sinto, porque ele é uma pessoa que precisa de alguém do lado. Ele é uma pessoa que sente muita saudade das raízes, da casa, da família e precisava ter uma pessoa ao lado, os filhos do lado. E eu acho que isso o empurrou para o lugar certo.

E eu acho que ele não foi melhor, porque foi muito prejudicado. Teve um ano que era para ter terminado como campeão e o roubaram na casa dele no Rio de Janeiro, na bateria contra o Damien Hardman. Se eu não me engano, foi na semifinal. Ele perdeu e destruiu. E o Dave Macaulay, se eu não me engano, ganhou, foi em uma etapa do Rio. Eu estava para ter o Ian e eu lembro bem disso. Veja só hoje… Eu achava que que isso agora mudou, porque eles têm imagens para olhar. Antes de dar a nota, vai e volta e olha-se muitas vezes, mas se ainda continuam errando é porque não tem jeito, manipulam. Aqui mesmo, lá vai, polêmica um: eu mesma não tenho amizade com o Medina ou a família dele, mas ele ganhou o Pipeline Masters. Para mim, ele foi o campeão. Eu acho o Gabriel foda.

Uma cena que traz flashbacks a Elka e Fabinho: Ian Gouveia com a esposa Mayara Hanada e a filha Malia, no North Shore.

Você sentiu isso na pele lá na época com o Fabinho e agora sente isso com seu filho Ian.

Muito! Do Ian, achataram o ano inteiro as notas dele. Teve etapa que Ian foi horrível, como Trestles. Eu não sou aquela mãe que pensa que o filho tem que ganhar, não, eu estou falando de notas. Enquanto um cara com o nome maior do que Ian pegava a mesma onda e ganhava um oito, Ian não saia do cinco e meio, seis. Eu fiquei chocada na França com a bateria entre ele e Joel Parkinson, porque a vida toda, quando mudou a regra, eu sempre ouvia falar que se desse a mesma manobra, na mesma onda, não ganharia nota. Ian deu um aéreo alucinante, uma bateria antes do John John, que deu um aéreo muito pior e ganhou 9,45. Ian ganhou 8,25 de cara. Vergonha na cara dessa WSL. Aí falam: “Fica calma, no primeiro ano todo Rookie é mal julgado”. Eu não achei que todos os Rookies foram mal julgados, tiveram alguns que foram bem julgados. Talvez o Ian não tenha o perfil que eles queiram, talvez ele não tenha um patrocínio de uma marca forte internacionalmente e nunca vai ter – porque ele será Hang Loose a vida inteira. Então eu acho que eles têm que começar a tomar vergonha na cara e julgar esse negócio direito. 

Como você se sente, então, falando sobre polêmicas. Na época do Fabinho, ele deve ter sofrido muito bullying. E, como você falou, agora parecia que tinha dado uma amenizada, até porque essa moleca cresceu junto e o Ian viaja desde cedo.

Todos que estão aí são amigos dele. Os gringos também. A maioria competiu junto desde pequenos. Desde pequenos, ele e o Leo Fioravanti têm fotos juntos. E eu vejo que existe isso de marca, de estática, o perfil, o jeito. Ian é palhaço e brincalhão. Muita gente confunde.

Até quando está nervoso, o Ian cai na gargalhada. Ele passa mal. É o jeito dele extravasar. Ele tem tanta vergonha de dar entrevista que fica com aquele sorriso o tempo inteiro. Ele pode ter se afundado na bateria e vai estar com aquele sorriso de orelha a orelha.

O sistema nervoso dele é assim. Quem espera um Ian carrancudo, cara fechada, aquecendo antes da bateria e fazendo tudo bonitinho, é porque não conhece o meu filho. Não adianta. Deixem o Ian ser do jeito que é, porque está bom assim.

Enquanto a maioria dos atletas escolhia Backdoor, Ian Gouveia encontrou as boas esquerdas para alcançar a semi do Pipe Masters, sob os olhares preocupados e empolgados da família.

Como você se sente sabendo que o sistema do esporte é esse com ele vivendo desse esporte há tantos anos?

Eu fico muito triste. O bom é que hoje eu posso usar as redes sociais. E eu não preciso falar tanto, porque quando vejo, o povo já falou por mim. Então, eu acho ótimo. Mas isso é triste para a WSL, porque uma empresa como essa tinha que ser algo justo. E a gente viu de uns tempos para cá muitas baterias polêmicas, principalmente, com o Medina. Então, eu acho triste.

Mas eu não posso agir como eu agia antigamente com o Fabinho: ir para a beira da praia, entrar no palanque, brigar com o juiz e com todo mundo, arrumar barraco, porque agora o negócio é chique. Todo bonitinho. Se eu fizer, Ian está fora do Circuito. Agora eu me segurei.

Como o Ian com o John John, que mereceu a nota da última onda da bateria, ele arrasou. Mas teve uma onda do Ian, do 6,83, que dois juízes deram 7,5 e todo mundo na praia achava que a onda merecia entre 7 e 7,5. Eles parecem que fazem a contagem e sei lá que diabo é. E deram 6,83. Se o Ian tivesse feito 7, estaria na final. Eu até pensei: “Puxaram tanto o saco do John John, eles vão ser legais com o Ian. Já que roubaram contra o pirralho da Austrália [Ethan Ewing]”. Eu até achei que o Caio Ibelli passava também. Mas eu não via na TV, eu vi na hora. E, na hora, é o coração quem manda. Eu pensei: “Ah, a WSL vai dar”, mas quando o locutor falou puxando o saco do John John, que doeu meus ouvidos: “John John Florence”. Foi por uma besteirinha que ele ganhou de Ian. Você acha que se o Ian precisava de 8,5 eles iam dar 8,73, igual deram para o John John. Não iam. Iam dar 8 para o Ian, iam dar 7,5. Então, eu fiquei com vontade de ir lá brigar, mas eu me segurei, rezei o “Pai Nosso”, rezei tudo o que eu conheço e me acalmei. Depois eu fui olhar as mídias sociais e vi todo mundo comentando que a onda do John John tinha sido a melhor. O cara é um deus do surf. Ele, Filipe e Gabriel estão um passo à frente de todos. Mas naquele momento eu achei que o Ian fez mais bonito na bateria. A garra que ele mostrou, ele merecia.

E outra, ele encarou uma missão quase impossível e conseguiu.

Foi. E eu ainda pensei que ele não precisaria mais brigar com o John John, pelo título sacramentado. Pensei que John John entraria uma fera para não dar o título para o Gabriel. Como Gabriel já tinha perdido pensei que ele fosse entrar bêbado. Fiquei na esperança de ele entrar bicado que nem os australianos faziam. Ganhavam e já tomavam, não estavam nem aí se iam ganhar um prêmio. Para eles parece que a quantia é indiferente. Já para a gente muda. Mas, não, o cara não bebe nada e chega lá normal. 

Agora comparando essas duas épocas. Você acabou de falar uma coisa que era muito latente, essa história de ser um esporte mais alternativo, os caras eram mais loucos e hoje em dia não tem mais isso. Todo mundo parece muito profissional.

Eu, Elka, prefiro na minha época. Era muito mais legal. Eu e Fabinho aproveitamos muito. Renan Rocha também, né. Ele se faz de certinho, mas não tem nada de certinho. É da pá virada. Eu, ele e Fabinho tocávamos o terror.

 

Publicada originalmente na Hardcore #336