O último dia do Corona Bali Protected, disputado na manhã deste domingo (4), deve entrar para a história como um dos maiores sucessos da ainda recente mas já tão atribulada história da WSL.

Três elementos foram fundamentais para isso.

Primeiro, o espaço. Depois de um começo difícil, com mudanças nada sutis na condição do mar, o palco de Keramas se mostrou à altura das maiores expectativas que sobre ele foram depositadas. Fartura de ondas de qualidade para acolher as expressões mais variadas que o melhor surf do mundo pode querer assumir.

Segundo, o tempo. Entre o soar da buzina inicial da primeira bateria e a entrega do último troféu, foram pouco mais de três horas. Menos do que uma partida de futebol americano, menos que algumas finais da NBA, menos que uma partida de futebol com prorrogação e pênaltis.

Terceiro e mais importante, o humano. Ítalo Ferreira foi algo mais que um campeão da etapa. Foi um show man, à vontade com seu público e com as câmeras e ciente da apresentação completamente fora de série que fazia. Se uma competição de nível normal (como qualquer uma das outra baterias do campeonato, que não tinham Ítalo) já era atraente ali, a performance do campeão levou a etapa para outro nível.

O potiguar e a norte-americana Lakey Peterson, campeã entre as mulheres, são agora os líderes do ranking, e vão defender a camisa amarela já nos próximos dias, em Bali mesmo, na sequência do Margaret River Pro.

VEJA TAMBÉM: Corona Bali Protected – Dia 7: Tudo (quase) de volta ao normal

Michel Bourez e Mikey Wright foram os primeiros a entrar na água. Michel fez o eterno wildcard parecer um grommet. Sério: a HARDCORE acompanhou as duas etapas do Rip Curl Grom Search no Brasil este ano e, olha só, se alguém colocasse as ondas do Mikey nesta semifinal no meio dos higlights da etapa de Búzios, quando boas direitas e esquerdas quebraram em Geribá, ninguém ia notar. E ia ficar claro que Dudu Motta deve ter mais futuro que o irmão de Owen nas competições.

Brincadeiras à parte, Wright não tem culpa por ser o escolhido da WSL para esse papel, que já começa a ficar estranho. Não teve culpa de ser empurrado nas quartas. Pegou os surfistas com melhor seeding em todos os eventos – John John, Gabriel, Julian – e venceu todos. Há muito mérito em toda essa história.

Entretanto, a bateria contra Michel pareceu um choque de realidade. Mikey vai competir em Uluwatu. Se demonstrar que essa escovada humilhante não abalou sua confiança, estará quase pronto para a elite. Aí só faltarão os resultados mesmo.

Na bateria seguinte, Jordy Smith recebeu um overscore ridículo por sua segunda onda. A sorte de Ítalo é contar com um talento absurdo. Se a onda de Jordy foi um oito, o dez de Ítalo podia ser um doze, tranquilamente. Incrível que tenha sido a única nota máxima do campeonato, e um indicativo da superioridade do potiguar sobre o resto do bando.

 

Seu ataque de backside, como nos últimos dias, estava impecável. As notas flutuaram de acordo com a variedade de manobras e tamanho da onda. Mas nada que Ítalo surfou hoje parecia valer menos que um sete.

Chegando na reta final, Jordy completou um raro tubo no dia. Como avaliar? Faltou espaço para demonstrar a diferença entre o 10 de Ítalo e a primeiro nota de Jordy, então o painel seria obrigado a compensar nas outras ondas. A nota foi próxima do que o sul-africano precisava. Com a prioridade, Ítalo teve sangue frio para olhar e deixar passar algumas ondas que surfistas mortais sonhariam toda noite antes de dormir.

O placar final pareceu estranhamente apertado para um duelo que Ítalo venceu com sobras.

Entre as semis e a final masculina, Lakey Peterson e Tyler Wright foram decidir o título do Corona Bali Protected entre as mulheres. Fato: boa parte dos homens regular-footers do circuito não conseguiu posicionar tão bem seu ataque como as melhores entre as mulheres – Tyler, Lakey, Steph, Silvana.

Lakey Peterson dominou o confronto do início ao fim e foi perdoada pelos juízes por um erro estratégico incrível para uma final. Resumidamente, ela tinha a prioridade e deixou Tyler pegar uma onda boa, da série, quando faltava menos de um minuto e a rival precisava de um sete alto – nada demais para a bicampeã mundial. Estava nas mãos dos juízes. Não seria absurdo nenhum se dessem a nota. Mas não deram.

Lakey assim chega a duas vitórias em quatro etapas completadas no ano e lidera o ranking com distância mínima para Steph Gilmore, que venceu as outras duas. As duas estão vivas nas quartas de final da continuação de Margaret River, assim como Tyler Wright e a terceira colocada do ranking, Tatiana Weston-Webb. A briga pelo título mundial entre as mulheres promete.

Lakey e Tyler tornarão a se encontrar na mesma bateria, nas quartas de final em Uluwatu (WSL/Cestari)

A final masculina foi um show de um homem só. Sem que fosse ameaçado por Michel, Ítalo foi numa espantosa crescente: 7,17, 7,67, 8,50, 9,27, 9,60. Nessa ordem.

Em sua melhor onda, Michel Bourez fez 5,83. Na soma, não chegou aos dois dígitos. Passou a final inteira praticamente em combinação, um encerramento frustrante para uma etapa em que ele vinha sendo um dos destaques, com ótimas atuações, desde o primeiro dia. O brasileiro, ao contrário, celebrou um bom campeonato fazendo na final a melhor média de todas.

O surf de Ítalo, moderno e intempestivo, em ondas com a qualidade de Keramas, mostrado ao vivo em um programa de mais ou menos duas horas de duração – isso deve ser a melhor propaganda que a WSL já conseguiu fazer de si mesma.

SEM NEM PISCAR

O circo agora travessa a ilha de Bali. Ítalo e Filipe Toledo parecem destinados a brigar pelo título mundial esse ano. A esquerda de Uluwatu, com seus tubos perfeitos jogando numa bancada rasa de coral, vai ser um ótimo teste para os dois. Outros dois dos principais concorrentes ao título seriam originalmente os favoritos: Julian Wilson e Gabriel Medina.

O campeonato deve recomeçar nesta segunda (5), às 20h, no horário de Brasília. Fique ligado!

RESLTADOS DO CORONA BALI PROTECTED

Mulheres – FINAL
Lakey Peterson 14,33 x 13,74 Tyler Wright

Homens – semifinal
Michel Bourez 14,27 x 5,67 Mikey Wright
Ítalo Ferreira 17,13 x 16,93 Jordy Smith

Homens – FINAL:
Ítalo Ferreira 18,87 x 9,83 Michel Bourez