O brasileiro Eloy Lorenzo pegou em julho deste ano o que muitos consideraram ser a onda mais longa da história em Uluwatu. Relembre este dia e conheça o responsável pela façanha

Por Fernando Maluf

Em julho deste ano, a Indonésia foi atingida por uma das maiores ondulações da história recente. Entre o mar de imagens que rodaram o mundo naquela semana, uma foi de um surfista brasileiro: o baiano Eloy Lorenzo, surfando o que muitos descreveram como a onda mais longa já registrada em Bali.

Quase um desconhecido do mundo mainstream do surf, Eloy conversou com a HARDCORE sobre um dos dias mais espetaculares da Indonésia em 2018, falou sobre a vibe no dia D, a preparação para a viagem e também sobre o que considera ser o estado do surf atualmente.

Você chegou a competir em alguma época da tua vida?

Não. Na verdade, sinceramente, sempre tive uma certa aversão. Nunca achei campeonatos justos. Sempre vivi no anonimato em minha fazenda na Bahia e surfando a costa baiana. Deve ser por isso que não tenho patrocínio.

E você frequenta a Indonésia desde quando?

Vim à Indonésia pela primeira vez ano passado e fiquei por 4 meses maravilhosos. Dia 5 de junho entrou um swell muito consistente que durou 3 dias e eu peguei a melhor onda de minha vida, passei quase um minuto dentro de um tubo. Foi uma experiência indescritível. As ondas tinham em torno de 15 pés e as condições eram épicas. Estava clean e perfeito.

Em que pico foi isso?

Bombie, outside Uluwatu. As ondas emendavam até perto de Padang Padang.

Depois disso, voltei ao Hawaii/Califórnia e pensei muito no swell desse ano. Decidi em súbito trazer minhas pranchas que surfo Peahi. Uma 10’6, uma 9’6, uma 8’8, uma 8’4, duas 7’4, duas 6’3, uma 6’1 e uma 5’8 de tow in. Trouxe leash reforçado, coletes… Vim preparado para pegar a maior onda de Ulu ou da Indonésia. Notei desde ano passado que poucas pessoas surfam lá atras, no Bombie. Acima de 12 pés poucas pessoas entram, geralmente surfo sozinho ou com meu amigo americano Johnny Dee.

No dia dessa onda, na verdade eu ia remar, no braço, como fiz em Jaws no swell do El Niño, em 2016. Em 15 de janeiro foi um deles, com mais de 80 pés. Mas, espontaneamente, através de um amigo em comum, o russo Andrei entrou em contato comigo a noite anterior ao swell perguntando se eu queria fazer tow in.
Na verdade eu não me inteirei, no momento da conversa ao telefone, que eu já o conhecia do surf. Ele é um dos poucos que surfa Bombie. Não falo inglês e ele não fala português. Nos comunicamos com o olhar e vibe.

Foi uma pilotagem muito técnica, eu já tinha treinado muito tow in na Bahia e em Peahi. A onda foi mais de um minuto e meio de glória. Infelizmente nenhum drone conseguiu seguir até o final.

Você pegou outras ondas no dia? Como estava a vibe na água?

Peguei dez ondas de tow in. A vibe estava maravilhosa. Só tinha eu e meu parceiro de tow in. Ninguém mais entrou. Depois, ao final da minha série de tow in, eu achei um brasileiro remando perdido e dei uma carona até o corner. Tinha um bodyboarder da Indonésia. Mas no momento do tow in não tinha ninguém. Todo mundo no cliff estava feliz de assistir, muitos comentários positivos. Vários legends locais me disseram que foram as melhores ondas que já assistiram surfar na vida. Fico feliz com o resultado, sou um surfista de alma e vivo para isso.

Rolaram algumas histórias bem sinistras desse dia. Você viu ou conhecia alguém que se deu mal nesse dia?

Eu vi o bodyboarder, quando saímos ele estava chegando. Ouvi falar que ele chegou em Bingin, mas não o conheço e não sei de nada sobre ele.

A história punk que tenho a contar é sobre o Johnny Dee, que entrou na remada nesse dia a tarde com uma 11 pés e pegou uma das maiores, senão a maior onda já pega na Indonésia. Sua prancha quebrou em três pedaços e ele saiu a nado.
Ele é uma lenda viva do surf. Não tem mídias sociais, nada. Um surfista nato.

Quer falar mais alguma coisa? Deixar um recado…

O surf de alma perdeu muito espaço para essa máfia de campeonatos de WSL e grande companhias. O verdadeiro surf é pegar as ondas grandes e perfeitas, no meu ponto de vista. E isso tem perdido muito sua essência, principalmente para essa nova geração, que perdeu o respeito que havia com os desbravadores e verdadeiros surfistas de alma. Eu, na minha idade, remando contra essa correnteza mafiosa do mundo do surf, vou tentar mostrar a verdadeira essência e reverter essa situação para o bem do mundo surf.