Por Luciano Burin

O nome de Jack McCoy é sinônimo de filmes de surf desde 1976, quando ele lançou o emblemático documentário Tubular Swells (co-dirigido com Dick Hoole). Com mais de trinta anos de carreira, o lendário escritor, fotógrafo e cinegrafista havaiano é daqueles veteranos que se mantém relevante e atual, por não ter medo de se arriscar na busca pela inovação aliada à qualidade. Um conceito traduzido em filmes icônicos na história do surf, como Storm Riders, The Green Iguana e Blue Horizon, entre tantos outros.

Sua mais recente e ambiciosa aventura audiovisual é o filme A Deeper Shade of Blue, onde ele simplesmente mergulhou na história do surf desde os seus primórdios até os dias atuais, contemplado com seu olhar a grande diversidade do universo das ondas. A qualidade das imagens produzidas por Jack com um inovador equipamento subaquático conquistou muita gente fora do meio do surf, como o ex-Beatle Paul McCartney, que utilizou este material no videoclipe da música Blue Sway.

Na entrevista a seguir, Jack McCoy fala sobre este projeto e oferece a sua visão pessoal sobre o surf e a produção de filmes relacionados ao tema.

1 – Você diria que A Deeper Shade Of Blue é o seu projeto mais ambicioso em termos de conteúdo e produção? Quais foram os principais desafios em realizar este filme?

O ADSOB foi de longe o meu projeto mais ambicioso e representou um grande desafio. Comecei morder mais do que eu podia mastigar e então passei a mastigar como um louco. Eu e Derek Hynd (ex- surfista profissional e jornalista de surf) ficamos um ano e meio pesquisando tudo sobre o Hawaii antigo até os dias atuais. Passamos muito tempo focados no período dos últimos 120 anos desde o final de 1800 até hoje. Foi um processo incrível para ambos pois aprendemos muito.

Para Derek Hynd foi o momento em que ele percebeu que queria ver como os equipamentos modernos se comportariam sem o uso das quilhas. Cinco anos depois ele é hoje o revolucionário que está surfando com mais originalidade do que qualquer pessoa no mundo.

Mas voltando à sua pergunta, o maior desafio foi a quantidade de histórias, pessoas e informações que eu tive que deixar de fora. O primeiro corte do filme tinha três horas e meia de duração. Descartar conteúdos neste filme foi algo muito, muito difícil.

2 – Você sempre consegue incluir trilhas musicais fantásticas em suas produções. Como surgiu a ideia da participação do ex-beatle Paul McCartney neste filme? Qual era o seu envolvimento no processo e que comentário você recebeu dele sobre o resultado final – o vídeo Blue Sway?

Eu adquiri uma cópia em CD do "The Fireman" (de Paul McCartney) depois de ler uma resenha em uma revista de música. O som era ótimo e partes dele me lembravam as gravações dos Beatles. Ele também tinha um par de músicas que achava que cairiam bem com o meu filme.

Eu fui ao Tahiti seis vezes no processo de aprender a pilotar moto subaquática e finalmente cheguei a Teahupoo em um mar de seis pés. Naquela noite, quando fui revisar as filmagens puxei as melhores cenas para assistir com alguma música e escolhi a faixa  “The Fireman”. Funcionou perfeitamente e eu decidi tentar conseguir os direitos para usar a música no filme. Cerca de dois meses depois obtive a aprovação.

Um ano se passou e um amigo que era produtor musical, conhecido meu da época do INXS, veio à Austrália. Chris Thomas é uma lenda e tinha produzido um dos álbuns de Paul na época do Wings e se ofereceu para levar uma cópia da sequência para mostrar a ele.  Mais uns seis meses se passaram até que Chris me ligou dizendo que Paul queria entrar em contato comigo sobre uma nova música que ele estava lançando. Eu liguei pra ele imediatamente e disse que estava interessado.

Dois meses depois eu fui para a Espanha e no caminho de volta parei em Londres onde me encontrei com ele. Suas palavras exatas depois de assistir ao clipe foram: “Mágico… brother, você pirou a minha mente!” Desde então nos tornamos amigos e eu lhe ensinei o abraço de coração para coração e o significado de Aloha, com o qual Paul sempre inicia as nossas conversas por email e telefone.

Eu te diria que nem em meus sonhos mais malucos eu poderia pensar que um dia estaria colaborando com um Beatle, mas isso aconteceu e agora eu posso morrer um homem feliz. Brincadeiras a parte, é realmente uma honra e me deixa muito orgulhoso como artista o fato de ser respeitado por um de meus heróis.

3 – Hoje em dia as pessoas são inundadas diariamente com conteúdo surf, com webisodes e curtas-metragens na tela do computador e outros formatos. Depois de tantos anos de filmagens, como você trabalhar para manter seus filmes atuais e relevantes para o público nesta era da informação e do excesso de imagens ao alcance de todos?

A qualidade vem acima de tudo para mim. Não importa a idade que tenha, uma pessoa sempre sabe distinguir quando vê algo com qualidade.

Eu sempre tentei fazer com que cada filme meu fosse diferente e eu não me animo muito a fazer filmes curtos de surf de ação. Eu quero contar histórias. Eu quero compartilhar o que eu sei e também compartilhar o que consigo ver. Sempre com qualidade. Eu realmente não estou muito preocupado com o que mais está acontecendo ao meu redor e me concentro apenas em fazer um filme que me desafie como cineasta, na esperança de tocar emocionalmente as pessoas que o assistem.

4 – Em ADSOB você conseguiu abranger um grande espectro da  história do surf e parece claro que a essência da evolução de surf passa por revisitar o passado de uma forma moderna  – com a "volta para o futuro" do surf sem quilhas, o uso das alaias e assim por diante. Você sente que esse processo também acontece nos filmes de surf, com muitos jovens usando os novos recursos de edição digital para emular o super 8 e o apelo retrô dos filmes antigos? Qual  a sua opinião sobre o futuro dos filmes de surf em termos de conteúdo, estética e tecnologia neste contexto?

Eu realmente tento não assistir muito ao que os outros caras estão fazendo, pois costumo ficar entediado e decepcionado com a maioria dos filmes que me dão para assistir. Então eu aprendei a apenas me concentrar no que estou fazendo. Eu sei que tem uma garotada que curte as câmeras de 8mm e fico empolgado que haja interesse nelas.

No meu caso, estou acompanhando a tecnologia que está correndo em um ritmo louco. Eu estive filmando em16mm e depois Super 16mm por vários anos e para o ADSOB eu resolvi abraçar uma nova câmera HD que me permitiu encontrar o ajuste que mantinha o detalhe da espuma da onda. Depois que eu descobri que conseguia fazer isso igual ao filme em película, mergulhei de cabeça na possibilidade de poder ficar filmando por horas dentro d`água com uma câmera, ao invés de ter que sair do mar para trocar o rolo do filme toda vez que ele terminava.

Depois de trinta anos filmando com lentes fixas 3.5mm, 10mm, 25mm, 35mm e 50mm, eu operei uma objetiva com zoom, que me permitia dançar sutilmente com o objeto filmado, aproximando e afastando o quadro. Como uma criança com um brinquedo novo, eu me diverti muito em produzir imagens aquáticas diferentes das que eu já havia feito nos últimos trinta anos. Fico empolgado com as novas tecnologias a partir do momento em que você as está usando para criar imagens novas e originais. Este sempre foi o meu objetivo e posso dizer que com estas novas câmeras eu realmente curti os novos desafios. Eles me mantém jovem.

5 – O que vem primeiro à sua mente se eu lhe pedisse para listar as sessões mais memoráveis ​​de surf você já experimentou em sua vida?

Eu penso nos anos que passei explorando a Indonésia e partes da Austrália por onde nenhum surfista jamais havia passado antes de mim. Foi uma época muito especial na minha vida. Afinal, nós tivemos 15 anos de G-Land somente com os amigos e eu ficava lá por 30 dias seguidos. Era um grande desafio pois nós tínhamos que organizar a chegada dos suprimentos que precisávamos para sobreviver lá na selva. Ter sido um dos primeiros caras a surfar Gnarloo no noroeste da Austrália foi também algo marcante, um período mágico.

6 – Como a sua relação pessoal com o surf mudou ao longo dos anos?

Eu aprendi que é inútil perder tempo chateado com as massas que soterraram algumas das terras virgens e do surf que eu desfrutava sozinho ou apenas com um par de amigos. Eu me lembro quando fui a Kuta (Indonésia) bem no início dos anos 70 e o lugar era uma vila de pescadores cheia de coqueiros. Hoje é como um filme de Fellini, mas as pessoas continuam as mesmas e mantém o mesmo sorriso no rosto. Eu posso não curtir o surf com crowd, mas eu sempre consigo achar um pico que não está tão aglomerado ou estressante e consigo pegar uma ou outra onda tranquila. A vida é cheia de mudanças e eu acredito que precisamos crescer com elas e ser felizes apenas por termos a próxima respiração. Aloha.

Links para o trabalho de Jack McCoy: www.jackmccoy.com e http://adeepershadeofblue.com/

Luciano Burin é autor do blog

Surf & Cult